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Cena do filme "Corpo Elétrico"Corpos livres e disponíveis para experimentar novas possibilidades, que não são limitadas pelo afeto, mas também não prescindem dele. Em Corpo Elétrico, a sexualidade é o que deveria ser sempre; somente uma das muitas dimensões de um ser humano, no caso Elias (Kelner Macêdo), jovem estilista paraibano que não sabe o que quer, mas - sem pieguice, quer tudo o que alcança.

O diretor Marcelo Caetano, que estreia na direção de longas-metragens, mas não é novato, lança um olhar não condescendente sobre uma juventude urbana que trabalha e sonha, mas se distancia do modelo clássico de jovens com um projeto de vida, planos para o futuro, desejos de consumo. Em Corpo Elétrico, há pouco passado e nenhum futuro; a vida acontece aqui e agora e é conduzida pelos desejos, afetos e algum acaso.

Assim, Elias se aproxima naturalmente dos operários da fábrica e da mesma maneira que é aceito por eles - apesar de não ser como eles, condição que Walter (Ernani Sanchez), gerente da confecção faz questão de frisar, ao lhe dizer que ele tem que saber separar as coisas, ele aceita todos. Do mesmo modo, não questiona sua sexualidade, apenas desfruta dela com pessoas diversas – de Arthur (Ronaldo Sorruya), professor universitário que o aceita como é, a drag queens que emulam uma família.  

A aparente segurança de Elias vem menos de suas certezas do que de sua disponibilidade. Ele se deixa levar pelas situações e encontros, mas sempre com uma inteireza que parece torná-lo invulnerável. Por onde passa, ele cativa e é cativado e se os laços são frágeis – como é a vida na cidade sem rosto e sem voz, são ao menos verdadeiros.  

Poster do filme "Corpo Elétrico"O roteiro de Caetano, Gabriel Domingues e Hilton Lacerda vai tecendo essas situações com calma e ritmo, o que mantém a atenção praticamente o tempo todo. Os diálogos soam muito naturais e apropriados. Os atores têm performances mais do que  competentes - Kelner Macêdo à frente, concretizando aquela ideia de corpo coletivo, mas tendo seus momentos de brilho individual.  A fotografia é limpa e generosa - há cenas de sexo sem vulgaridade; e a longa sequência em que o grupo sai da fábrica e caminha para um bar e a câmera o segue enquanto se agrupam em dois ou três, sem perdê-los de quadro, vai ficar na história.

Há alguns momentos fora da curva; sequências que parecem deslocadas da narrativa, como o passeio noturno de Márcia Pantera e seu grupo em moto ornada por neon ou o “casamento alternativo” de um casal heterossexual e evangélico, encenado na praia à noite.  Quando Wellington (Lucas Andrade) entra em cena, o foco se desloca ligeiramente. Algumas questões levemente sugeridas, como relações laborais e assédio moral no ambiente de trabalho, não são aprofundadas. Nada que tire a intensidade de Corpo Elétrico e a sua discreta celebração da alegria de se estar vivo.  

Por Gilson Carvalho

Nota 8,5


Ficha Técnica

Corpo Elétrico – 104 min.
Brasil – 2017
Direção: Marcelo Caetano
Roteiro: Marcelo Caetano, Gabriel Domingues, Hilton Lacerda
Elenco: Kelner Macêdo, Lucas Andrade, Welket Bungué, Nash Laila, Georgina Castro, Márcia Pantera, Ronaldo
Serruya

Estreia 17/08

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