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Cena do filme "A Garota Ocidental - Entre o Coração e a Tradição"A sociedade como conhecemos hoje é o reflexo das lutas daqueles que questionaram o status quo ou simplesmente não eram omissos as injustiças e levantaram uma bandeira combativa no terreno pantanoso da intolerância e desrespeito. O reverendo Luther King afirmava ter mais espanto no silêncio dos bons do que do grito dos maus, e hoje mais do que nunca com esse imenso network global dando mais vozes a oprimidos, causa espanto o choque cultural e de como certas tradições milenares conseguem se manterem vivas, mesmo sendo agressivas a gêneros, raça e opções sexuais. Em A Garota Ocidental - Entre o Coração e a Tradição esse universo é pungentemente retratado e mostra como cultura e religião pode assumir um papel de retrocesso na vida de um indivíduo.

A produção plural do diretor Stephan Streker mostra a vida da bela Zahira (Lina El Arabi) grávida aos 18 anos, que precisa lidar com a possibilidade de fazer um aborto ou ter a criança, com a pressão de seus pais para que realize o aborto rápido e em segredo. Tal situação é agravada ainda mais pela devoção religiosa de sua família, alinhada as tradições culturais, que apenas aceita que ela se case com um homem paquistanês. Até esse ponto, esse seria somente mais um filme que retrata com distância os dilemas de uma jovem que enfrenta a tradição, alguns deles uma comédia romântica ou noutros um mero enfrentamento cômico do patriarcado, assim como outros tantos que já pousaram nos cinemas. Mas Zahira é uma jovem inteligente e plenamente encaixada na sociedade francesa onde moram e resolve fazer o enfrentamento de sua família em busca da felicidade.
           
A família de Zahira é de certa forma progressista, unida, permissiva na liberdade para saírem e se divertirem, extremamente afetuosa e sabem da gravidez de sua filha, aonde Zahira vai atrás sozinha, e com o consentimento do pai, dos trâmites do aborto. Há uma relação bela de proteção e ajuda mútua da personagem principal e seu único irmão que no filme parece assumir o papel do homem que representa o alicerce da família. Sendo a família mais maleável, ela faz um pequeno agrado a Zahira permitindo que ela possa escolher seu marido entre três candidatos, mas isso não é capaz de desvanecer as angústias de um casamento arranjado com um desconhecido e as fugas são frequentes.

Poster do filme "A Garota Ocidental - Entre o Coração e a Tradição"
Há uma angústia intermitente dentro da narrativa, sendo ela nos olhos e na repreensão dos corpos, ou simplesmente nos diálogos que não acontecem. A interessante montagem do filme cria um fluxo em que sempre existe uma lacuna do que poderia ocorrer, optando por cortes abruptos quando uma sequência poderia ganhar em dramaticidade como um filme clássico narrativo comum. Como quando a música de uma sequência acaba abruptamente em outro plano causando estranheza ou quando a matriarca presenteia Zahira com um objeto centenário e no próximo plano ela está brincando infantilmente com a irmã, mostrando como Zahira ainda é jovem para tantas escolhas. A própria história possui dilemas de enormes proporções e o filme não é pedante na tentativa de se criar dramalhão.
           
O ato falho do filme é de quase entregar o seu final, embora não se queira crer que, com essa atmosfera angustiante, o filme tomasse outros rumos. Porém A Garota Ocidental é mais um exemplo da capacidade magnífica do cinema europeu de contar histórias e ser visceral ao mesmo tempo.

Por Lucas Scalioni

Nota: 7.5



Ficha Técnica

A Garota Ocidental - Entre o Coração e a Tradição (Noces) – 98 min.
Bélgica, Luxemburgo, Paquistão e França - 2017
Diretor: Stephan Streker
Roteiro: Gabriele Muccino
Elenco: Lina El Arabi, Sébastien Houbani, Babak Karimi, Olivier Gourmet e Alice de Lencquesaing

Estreia 22 de junho

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