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Cena do filme "Silêncio"É sempre bom, enquanto crítico e amante do cinema, poder presenciar o retorno de um mestre. O mestre é Martin Scorsese, três anos após seu último filme, o ótimo O Lobo de Wall Street (e após uma mal-sucedida incursão pela televisão, com Vinil), e o nome do retorno é Silêncio. Para o filme, adaptado de um romance do japonês Shusaku Endo, Scorsese retorna à sua criação católica para contar a história de dois padres, enviados para o Japão pela Companhia de Jesus para averiguar a verdade sobre um padre que, alega-se, teria abandonado o Catolicismo pelo Budismo, em um clima de pesada perseguição contra os cristãos no Japão.

Esse ambiente histórico é detalhadamente reproduzido na meticulosa recriação de época, que não fica sem lembrar as ilustrações do período Feudal no Japão. As belíssimas paisagens japonesas são também retratadas no filme, fornecendo uma atração à parte.

Todos esses detalhes servem de apoio à história dos padres Sebastião (Andrew Garfield, em sofrimento de dar dó) e Garupe (Adam Driver, em outra de suas atuações de qualidade). A princípio em busca pelo padre Ferreira, os dois terminam por chegar a um vilarejo japonês onde continuam a viver, escondidos, alguns cristãos. Privados de sacramentos por muito tempo, os habitantes se atiram sobre os padres, que, se relutantes em um primeiro momento, acabam construindo um laço com a comunidade. O coração emocional do filme está nesse segmento, na demonstração da poderosa fé da gente humilde que Sebastião e Garupe encontram pelo caminho, dando surgimento a algumas das mais belas cenas da carreira de Scorsese.

É claro, não podia ficar tudo tão bem (spoilers à frente): descoberto pela inquisição japonesa (a palavra é usada diversas vezes, não sem certa ironia), Sebastião é feito prisioneiro, e a dinâmica do filme se altera. Confrontado com o inquisidor Inoue, que tenta fazê-lo abadonar sua fé, Sebastião precisará demonstrar firmeza, aguentando os tormentos e torturas que lhe são impostos. Essa parte do longa, ocupando praticamente toda a segunda metade do filme, quebra levemente o ritmo da trama; seu caráter repetitivo também prejudica o filme, embora seu desfecho garanta um impressionante desenlace para o longa.

Poster do filme "Silêncio" No campo das atuações, Garfield se sobressai como Sebastião, em uma atuação de impressionante desgaste físico e densidade emocional. Entre o elenco de apoio, vale destacar o arrebatador desempenho de Shinya Tsukamoto como um cristão capturado cujo sofrimento lembra o de Cristo na cruz, algo ressaltado nos hábeis enquadramentos de Scorsese, que lembram os de Kubrick em seus dias mais geniais.

Que esse filme tenha sido tão ignorado no Oscar (apenas uma menção, no prêmio de fotografia) constitui um crime contra o cinema. Entre as categorias que mereceriam destaque, temos pelo menos Melhor Ator, Ator Coadjuvante, Direção de Arte, Figurino, Montagem e, porque não? Diretor.

Silêncio, com seu título polivalente, é um belíssimo filme sobre a fé, mas que agradará também não-religiosos e não-cristãos. É uma honra poder presenciar o retorno de um mestre como Scorsese; mais ainda quando o filme é tão bom.

Por Franco Alencastro

Nota: 9


Ficha Técnica

Silêncio (Silence) - 162 min.
EUA/Itália/Japão/México
Direção Martin Scorcese
Roteiro: Martin Scorcese, baseado em obra de Shusaku Endo
Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano, Shinya Tsukamoto, Ciarán Hinds, Yôsuke Kubozuka, Yoshi Oida

Estreia 9/3

 
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