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A África do Sul não tem tido muita sorte nos últimos anos: da posição de destaque entre as nações emergentes do mundo e sede da Copa de 2010, a “nação arco-íris” de Nelson Mandela passou a ter de lidar com a desaceleração econômica, protestos de uma juventude sem oportunidades e uma crise política que ameaça impedir o presidente Jacob Zuma de terminar seu mandato. (Qualquer semelhança com o Brasil é mera coincidência).

Se a vida te dá limões, faça uma limonada, diz o velho ditado, e é exatamente isso que Sibs Shongwe La Mer faz em seu longa de estreia, o belo Necktie Youth (que ganhou em português o ambíguo título Eles Só Usam Black Tie). O filme é um retrato da juventude africana nascida após a vitória de Nelson Mandela em 1994, apelidada de born free generation: aquela que, esperava-se, simbolizaria o nascimento de uma nova África do Sul, próspera e não dividida, mas fortalecida pela pluralidade de raças e culturas. Ao invés disso, as lentes de La Mer mostram a juventude hedonista do bairro de Sandton, o mais rico de Joanesburgo, levando o espectador, por meio de sua câmera intimista, a um mergulho de festa em festa, regadas à drogas facilmente obtidas. 

O pano de fundo da trama é o suicídio de uma jovem de uma rica família de Sandton. O ato é filmado e divulgado na internet, transformando-se em notícia nacional e levando à produção de um documentário sobre a juventude de Sandton, que compartilha seus depoimentos sobre as ansiedades e aspirações da juventude nesse filme-dentro-de-um-filme. Entrecortando esses segmentos, temos a história de Jabz, um rapaz de vinte anos quieto e introspectivo, e seu explosivo amigo September (papel do próprio diretor). Os dois passeiam à esmo por Joanesburgo, comprando drogas e se metendo em brigas. 

Poster do filme "Eles Só Usam Blacktie"Alternando-se ainda com essa história principal, temos algumas vinhetas apresentando alguns personagens que não retornam novamente à trama, como um casal interracial que precisa lidar com o preconceito da sociedade. As relações raciais são exploradas de forma sutil pelo longa, que não se enquadra tão facilmente em uma narrativa de guerra racial, nem do sonho multicultural de Mandela. A realidade, como o filme tenta mostrar, é muitas vezes mais sutil.
O longa é complementado por muitos acertos estéticos, como o de filmá-lo em preto e branco, o que reforça o clima de distância e alienação sentido pelos personagens; e a trilha sonora punk à-la-Nirvana, que estabelece um diálogo do filme com representações mais antigas do vazio existencial sentido pela juventude.

Exibido no Brasil durante o Festival do Rio de 2015, é um crime que esse filme tenha demorado tanto para chegar ao grande circuito. O que se tem em Eles só usam black tie é a estreia arrebatadora de um cineasta de 25 anos que merece ser acompanhado, contando de maneira original uma história desconhecida por aqui. Para todos os jovens cinéfilos que sonham com uma carreira como diretor, é uma prova de que é possível fazer um clássico no primeiro filme; para todos os outros, é uma experiência que não se deve perder.

Por Franco Alencastro
Nota: 9



Ficha Técnica

Eles Só Usam Black Tie (Neck Tie Youth) 86 min.
África do Sul, 2015
Direção: Sibs Shongwe La Mer
Roteiro: Sibs Shongwe La Mer
Elenco: Bonko Cosmo, Sibs Shongwe La Mer, Colleen Balchin

Estreia: 9/3 

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