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Cena do filme "O Dançarino do Deserto"
Há pouca dança e ainda menos deserto no drama biográfico, dirigido por Richard Raymond,  O Dançarino do Deserto. Em seu longa-metragem de estreia, ele faz apenas uma denúncia das arbitrariedades do regime dos aiatolás iranianos, a partir de uma visão totalmente ocidental, sem qualquer contextualização ou contraponto, e com uma narrativa extremamente melodramática. 

O filme é baseado na história de Afshin Ghaffarian, bailarino autodidata inspirado por filmes musicais americanos piratas, que vê tolhida sua veia artística ainda na infância, quando é punido fisicamente por dançar em sala de aula, em Mashhad, sua pequena cidade natal. È nessa época também que aprende uma segunda lição, ensinada por um professor gentil (Makram J. Khoury) em um centro comunitário clandestino: no Irã há dois mundos paralelos. Lá, ele é apresentado à decadente arte ocidental, o que inclui música, literatura e dança, obviamente.

É também no mundo subterrâneo, longe das garras das autoridades, que eles e outros jovens têm acesso à música eletrônica, bebidas, drogas e à internet, onde Afshin pode aprender ainda mais passos. Isso acontece em 2009, na Universidade de Teerã, onde Afshin (Reece Ritchie) encontra sua turma: o artista plástico Ardy (Tom Cullen), o estudante de engenharia Mehran (Bamshad Abedi-Amin) e Elaheh (Freida Pinto).  Juntos, vão formar um grupo de dança secreto. Guiado pela instável Elaheh, cuja mãe havia feito parte do balé nacional do Irã antes da revolução islâmica em 1979, Afshin aprende que técnica não basta, é preciso ter coração.

Pouca profundidade e contextualização tiram credibilidade de "O Dançarino do Deserto"


Isso ele adquire testemunhando as agressões dos Basij, polícia moral, que reprime qualquer coisa que consideram anti-patriótico, como dançar e cantar. Com o tempo, a dança passa a ganhar cada vez mais importância em sua vida, e ele decide então fazer uma apresentação pública no único lugar onde não seria preso, o deserto.

Situado no mesmo período abordado por outro filme recente, 118 Dias, de Jon Stewart - as eleições presidenciais supostamente fraudadas em que Ahmoud Ahmadinejad foi reeleito, O Dançarino do Deserto comete o mesmo erro: não faz qualquer esforço para mistrar o outro lado. Na sua superficialidade, perde muito da credibilidade. Por isso, não consegue o engajamento do espectador, apesar dos brutalidades dos agentes do governo. 

As seqüências de dança resumem-se a alguns ensaios e uma apresentação feita no deserto, mas filmada de modo equivocado, já que raramente mostra os corpos dos dançarinos, preferindo concentrar-se em closes e detalhes. O protagonista não tem carisma para segurar tal papel. A menção ao deserto funciona mais para compor um belo título do que como metáfora para liberdade, já que é também no deserto que eles são agredidos pelos Basij. E, no final, ele só se torna livre mesmo em Paris.

Por Gilson Carvalho

Nota 4


Ficha Técnica

O Dançarino do Deserto (Desert Dancer) – 114 min.
Diretor: Richard Raymond
Roteiro:  Jon Croker Elenco: Reece Ritchie, Freida Pinto, Tom Cullen, Nazanin Boniadi, Makram J. Khoury, Gabriel Senior, Bamshad Abedi-Amin




Estreia: 16/04

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