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Cena do filme "O Último Ato"Exibido fora de competição no Festival de Veneza de 2014, O Último Ato é baseado no livro A Humilhação, de Philip Roth, homônimo ao título original.

Al Pacino, cuja carreira atual se nota ironicamente refletida na ficção, dá vida a Simon Axler, um ator consagrado, mas decadente em seus 65 anos de idade. Depressivo, ele vê desvanecer-se sua vocação para o teatro e, solitário, se distancia cada vez mais do seu ofício e chega a perder o interesse pela vida. Após passar um período numa clínica psiquiátrica, Simon revê Pegeen (Greta Gerwig). Filha de um casal de amigos atores, ela – já beirando os 30 – confessa ter uma queda pelo famoso ator desde os oito anos de idade. Lésbica, Pegeen larga tudo e engata um relacionamento com Simon; mas as divergências entre o casal tornarão caótica a relação e farão surgir pessoas e conflitos do passado.

O Último Ato”: a deterioração psicológica e emocional do artista precede desfecho previsível


“O mundo inteiro é uma peça de teatro. Os homens e mulheres são meros atores”; no camarim, Simon Axler repete a passagem shakespeariana, já deixando entrever algo de desesperança. Enquanto sente que perde a capacidade de atuar, que as palavras lhe fogem e a inspiração se ausenta, Axler sofre dos males físicos da velhice e parece perder-se nas lacunas que tomaram conta de si. Ele encara a vida como se fosse uma grande peça de teatro e, permanentemente interpretando um papel, busca passar verdade e ser convincente o tempo inteiro – ou então, toma distância e é apenas espectador. Não à toa, distinguir a realidade da fantasia fica cada vez mais difícil.

As figuras femininas entram na trama para conturbar ainda mais a vida de Simon. Primeiro Sybil, que ele conhece na clínica psiquiátrica e que está convencida de que quer ver o marido morto – e de que é Simon quem deve realizar o serviço. Diante da recusa do ator, ela passa então a persegui-lo.

Depois, há a volúvel e distante Pegeen, que coleciona amantes rancorosos e dependentes emocionais por onde passa. De alguma maneira, Simon junta-se ao grupo e passa a apoiar-se cada vez mais na relação estranha que tem com a moça.No começo, o sabor da novidade é tão bom quanto montar os trilhos de um trenzinho elétrico que percorre toda a casa;Pegeen traz de volta algum movimento à vida de Simon,uma energia então esquecida, tal qual o brinquedo ao circular por cômodos e corredoresinúteis. Mas o desprendimento de Pegeen, sua juventude e os problemas de comunicação entre eleslogo se fazem obstáculos incontornáveis.

Poster do filme "O Último Ato"A solidão não deixa a vida de Simon; seu sofrimento anda em paralelo com as reflexões a respeito da arte e da figura do ator, despejadas nas consultas com seu analista via Skype. As referências a Rei Lear dividem lugarcom o vazio dos dias do protagonista e o abismo que o separa dos demais – a mesa redonda na cozinha é tão ampla e as pessoas ficam a uma distância que chega a incomodar...

Se a atuação introspectiva e brilhante de Al Pacino é o grande trunfo do longa, a ótima Greta Gerwig não fica atrás. Manipuladora, sua Pegeen tem um appeal não óbvio; ela conquista e consegue resgatar algo da energia vital que se esvai cada vez mais do depressivo Simon Axler.

Trágico e com toques de um humor apurado e irônico, O Último Ato segue muito bem ao abordar a deterioração psicológica e emocional do artista, além da questão da identidade, da arte e do papel do ator. Não obstante, o filme decai numa não tão feliz última parte, previsível, mas que não deixa de ter seu valor.  Infeliz mesmo foi o filme ter sido lançado logo após o sensacional Birdman: não só a temática é muito parecida, como ainda diversos momentos – mesmo cenas específicas – fazem com que seja inevitável evocar o filme de Alejandro Gonzalez Iñárritu.

Por Aline T.K.M.

Nota 8


Ficha Técnica

O Último Ato (The Humbling) – 112 min.
EUA – 2014
Direção: Barry Levinson
Roteiro: Buck Henry, MichalZebede
Elenco: Al Pacino, Greta Gerwig, Kyra Sedgwick, Dianne Wiest, Dylan Baker, Charles Grodin, Nina Arianda

Estreia: 26/03


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