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Cena do filme "Cássia Eller"
Não é fácil escrever sobre uma estrela, esteja esta brilhando no céu ou ainda em forma de matéria na terra. Também não é nada fácil escrever ou fazer uma obra sobre alguém que amamos quase que incondicionalmente. A dimensão crítica é algo que vejo com muito apreço e ate mesmo carinho, pois aprendi que com ela, temos a possibilidade de ouvir e aprender, refletir, algo no geral muito mais forte do que um elogio, apesar desses fazerem muito bem ao nosso espirito.

Sou completamente apaixonada pela Cassia Eller. Lembro do primeiro show da Cassia que fui, no Teatro da UFF, na reitoria da faculdade de Niterói, quando a Cassia estava começando a se tornar mais conhecida por causa do sucesso que a musica de Renato Russo (Malandragem) tomaria cantada por aquela sua voz totalmente particular, afinada e ao mesmo tempo chutando pro alto essa afinação, pra expressar como uma mulher de atitude pode criar isso em termos sonoros e estéticos: “quem sabe ainda eu sou uma garotinha... esperando o ônibus da escola sozinha...”. Se lembro muito bem quase todas as letras de Cassia – pois a acompanhei desde o se primeiro cd, ate o ultimo, passando por encontros com ela em shows que estão vivos na minha memória - desse primeiro encontro lembro principalmente de uma imagem: Cassia louca e linda como sempre, com um copo de agua na mão, e ela bebia a agua e cuspia varias vezes no mesmo copo. Nojento? Não, Cassia tinha a capacidade de fazer isso e ao mesmo tempo ser extremamente atraente mesmo quando chegava, e imitando o gesto clássico dos homens, olhava pro público e segurara seu pau. Sempre moleca e linda, malandra mesmo – e se a musica foi feita pelo Renato, ninguém melhor do que Cassia para se apropriar dessa musica, como de fato aconteceu. E isso aconteceria muitas e muitas vezes, com muitos interpretes diferentes, que souberam fazer musicas que ela não fez, muitas delas compostas por homens, seres esses com quem Cassia sempre se identificou, talvez porque via neles uma agressividade que estivesse aliada a uma sensibilidade, duas forças nesse mundo que ela sempre pareceu perseguir, provavelmente durante toda a sua vida. 
Cena do filme "Cássia Eller"
Escrevo essa critica de memória, pois a única vez que vi o filme foi em outubro, na estreia nacional dele no último dia do Festival do Rio. Então essa critica se detém sobretudo sobre uma lembrança e uma sensação que lembro que tive durante minha experiência diante do novo filme de Paulo Henrique Fontenelle. Acho que o filme tem cenas fortíssimas e muito relevantes na carreira da Cassia – e a maior delas sem duvida é a participação dela no Rock in Rio de 2001, que foi complemente histórica e ainda teve Cassia cantando Nirvana, com “Smells like a teen spirit”. Foi um show histórico, uma performance histórica, e Paulo é bastante atento ao nos fazer ver coisas que ate mesmo uma fan como eu, que realmente acompanhava consideravelmente a Cassia, nao lembrava: parece que Dave Grohl (origem no Nirvana, e depois integrante do Foo Fighters, Queens of the Stone Age e Them Crooked Vultures) , que estava no Rock in Rio no mesmo dia, realmente se impressiona com a performance de Cassia, comparando esta com a de Kurt Kobain, que nesse momento já havia morrido. Como um clássico documentário musical e de personagem, e figura incrível que ela é, o filme traz momentos essenciais e marcantes da sua carreira e de sua vida pessoal, particularmente sua relação com sua companheira de toda uma vida, Maria Eugenia e seu filho Francisco, que se tornou conhecido como Chicão, por conta da adaptação que Cassia fez de outra música que Renato Russo fez pra ela (e na verdade, uma adaptacão da sua propria versão, pois quando ela gravou a musica Chicão ainda não tinha nascido, o “Quero aprender com o teu pequeno grande coração, meu amor, meu Chicao...” nasceu no Acústico dela) – e e importante dizer que o artista mais evidente no filme para a cantora não é Renato, mas sim Nando reis, cantor essencial para ela, por exemplo, no CD O Segundo Sol, compositor e cantor que talvez tenha “substituido” o impacto que Renato Russo teve para a carreira de Cássia, após a morte dele – e Renato praticamente não aparece no filme, o que também é um problema). Então, realmente foi muito emocionante me reencontrar com todas essas cenas que Paulo nos traz. Lembro que muitas lagrimas rolaram lá na sessão da pré- estréia do filme, varias minhas inclusive, ali na primeira fileira do cinema. Lembro ate mesmo que tive grande dificuldade de me levantar, sendo uma das últimas a sair do cinema. Como vi o filme em outubro, não lembro muito bem de todas essas cenas, o que talvez me faca ate mesmo escrever sobre ele novamente, mas lembro das minhas sensações.

E diante desse furacão sedutor que Cássia é para quase todos nós – e certamente também para Paulo Henrique Fontenelle, a minha sensação diante de Cássia Eller é que o filme poderia ser um pouco mais ousado em termos estéticos e linguísticos. Cássia gostava de ultrapassar os sinais e infringir as regras, no mínimo questiona-las, criança certamente devia ser muito levada, malandra foi ate o momento final dessa sua vida que foi interrompida de forma tao imediata e assustadora. Lembro como hoje o exato momento que soube da sua morte: em uma virada de ano novo, eu isolada numa casa no mato em Petrópolis, sem acesso a nenhum meio de comunicação que pudesse comprovar aquela noticia um tanto absurda. Quem me deu a noticia foi minha mãe, quando me ligou para me desejar um feliz ano novo. Mãe é mãe, e ano novo também, mas foi um ano novo em que em homenagem a Cassia decidi encher a cara e pensei nela a noite inteira, estivesse eu bebendo, beijando ou dançando. Era Cássia que estava ali comigo e tenho certeza que ela tomou o corpo e a mente de muitas pessoas nesse momento. Parece que ela só poderia nos deixar da forma que deixou assim mesmo: numa noite que teoricamente seria uma noite de celebração, uma noite que em pensamos nos nossos desejos e sonhos e que acreditamos que sim, um mundo melhor pode surgir. Mas Cassia Eller, o filme, acaba caindo em alguns momentos em um território comum aos filmes de personagens, ainda mais se estes se referem a pessoas incríveis como foi Cássia: tenho a sensação constante que muitos desses filmes acabam por se prender a quão espetaculares são esses performers e artistas, o que não consigo sentir como suficiente para se falar de uma estrela, por mais que saibamos que Paulo é um documentarista gigante, que se fez conhecer principalmente pelo seu lindo Loki (2008), filme sobre Arnaldo Baptista. Ao fazerem isso, muitas vezes a denominação “Retrato”, acaba lembrando uma estrutura sem a criatividade e a ousadia que poderiam ser sua base fundamental para alcançar em termos estéticos um gesto que determinados artistas expressam em suas obras. 

Poster do filme "Cássia Eller"Para terminar, tenho um palpite delicado para expressar porque isso acontece em Cássia Eller. Uma pessoa fundamental para o desenvolvimento da narrativa do filme é a companheira de Cassia de grande parte da sua vida, Maria Eugenia. As palavras de Eugenia que ainda são bastante doloridas diante da morte de Cássia estão ali para quem quiser ouvir. Por mais que Eugenia seja uma mulher bem humorada e leve, e talvez pouco ciumenta (e nesse sentido, lembro que tanto as posições de Eugenia quanto de Cássia no que se referem ao caso que a cantora teria com a percussionista Lan Lan de certo modo impressionam quem não tem essa capacidade de não sentir ciúmes), é claro que a dor e o sofrimento existem em Eugenia, além de algumas cicatrizes, por essa companheira que lhe deixou o maior presente de sua vida antes de ir embora sem dizer adeus: Chicão. Cássia provavelmente não devia mesmo avisar a hora de ir embora. E Chicão também parece ser um pouco assim no filme, leve, lindo, sedutor e meio que sem compromisso, como a mãe de quem pouco lembra mas certamente muito ama. Mas me parece que Paulo acaba caindo nas armadilhas que a própria Eugenia lhe apresenta sem querer e talvez sem consciência: é a narrativa da dor de Eugenia, que, no fundo leva o filme adiante: os absurdos que aconteceram diante da morte de Cássia, tanto a capa da Veja determinando através de sua forma classicamente sensacionalista que Cássia morerra de overdose, quanto também a briga e o julgamento que iria ocorrer entre Eugenia e o pai de Cássia por causa de Chicão. Acaba que, por conta dessa narrativa, que vem e volta, o filme fica em alguns momentos mais narrativo que uma figura como Cássia exigiria, pois louca e linda como ela, acredito que ela deveria ser retratada de uma forma mais radical. 

E se isso aconteceu diante de um contato que se deu entre duas pessoas altamente sensíveis, como Maria Eugenia e Paulo Fontenelle, pra mim fica uma pergunta e um pensamento que vejo ali nas entrelinhas do filme: Cássia Eller acaba sofrendo as consequências de um amor, não exatamente o amor entre Cássia e Eugenia que marcou toda uma vida, mas um novo amo, o amor que se criou neste trabalho entre Eugenia e Paulo. Acho que isso é realmente um risco, pois pode-se perceber como ela é uma mulher verdadeiramente apaixonante, e não é por menos que Cássia dedicou grande parte da sua vida a ela e ainda deixou-lhe o maior tesouro que uma mulher pode ter na vida. Cássia Eller, um filme que conta os prazeres e os sacrifícios que fazemos diante de um verdadeiro amor.

Por Juliana Cardoso Franco



Ficha Técnica

Cássia Eller - 120 min.
Brasil - 2014
Direção: Paulo Henrique Fontenelle

Estreia: 29/01

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