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Para contar a história verídica de um filho de classe média americano corretor de riscos Jordan Belfort (Leonardo Dicaprio, vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar pelo papel), em ascensão material durante a década de 1980 devido ao seu envolvimento ilícito com a corrupção e o crime, Martin Scorsese faz de O Lobo de Wall Street a retomada ao gênero que o consagrou. Com um adendo, o uso propositalmente exagerado da sátira ao mundo corporativo do início ao fim.

A adaptação da obra biográfica escrita pelo próprio Jordan Belfort e roteirizada por Terence Winter, que escreveu diversos episódios da extinta série de televisão de grande audiência nos Estados Unidos, Família Soprano, traz um Scorsese em ponto de bala. A combinação de diálogos mordazes - com incontáveis fucks –, a exploração do uso de cocaína (e outras drogas) dos obcecados por cifras e prostitutas dos que respiram o mercado financeiro, aliada à violência (um pouco mais moderada, se revermos a obra de Scorsese) remete aos clássicos do cineasta, como Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995).

O Lobo de Wall Street” satiriza o mundo corporativo, debochando das barbaridades cometidas por ganância


Difícil afirmar quem em Hollywood consegue fazer uma narrativa em voice over tão eficaz, capas de sustentar a partir disso, quase três horas de filme, cujo o único eixo central é a ascensão e queda de um homem capaz de convencer qualquer pessoa que ele pode vender qualquer coisa.

O personagem de Matthew McConaughey aparece brevemente, mas o suficiente para plantar a semente no coração de Jordan, que a partir de então não deixou de pulsar forte. Literalmente. O jovem corretor absorveu bem às lições do seu tutor, que ao lado de Donnie (Jonah Hill, em uma versão mais jovem dos papéis de Joe Pesci) constrói um império. Em pouco tempo, a dupla e sua equipe faturam bilhões de dólares fraudando sua clientela.

A reconstituição da época relembra – ao menos aos mais antigos - que o aparelho Bip era um objeto de luxo e a cerveja sem álcool era uma novidade, assim como a recém descoberta das poderosas “speed” (LSD), que, em dado momento, quando em uso pelos personagens principais, são responsáveis pela melhor sequência já vista no cinema em tempos. Scorsese estica a profundidade de campo, causando a sensação letárgica de impossibilidade de que Jordan consiga rolar uma pequena escada para então rastejar até o carro. 

Scorsese examina uma década americana devastada pelas drogas, sexo e corrupção 

Assim como o recurso de voice-over se encaixa na narrativa, lembrando os filmes citados, a leitura da mente dos personagens não é um menosprezo a inteligência da plateia. Com muito dinheiro, e o policial do FBI (Kyle Chandler) em sua cola, Jordan quer escoar o seu dinheiro no país que em 1980 era considerado o paraíso fiscal, Suíça. No encontro entre o dono do banco suíço (Jean Dujardin, de O Artista) e Belfort, o diálogo existente apenas nas mentes deles é a transcrição da alta periculosidade no mundo ilícito dos negócios. E que é exagerada. Como em todo o filme, o abuso, seja em drogas, com uso de dinheiro, violência reforça o tom jocoso da sátira, cujo usufruto é figurativo com presença de animais dentro de escritórios, ou as extravagâncias de Donnie ao rebaixar os seus subordinados.

Em O Lobo de Wall Street, o panorama traçado da década de 1980, momento em que o presidente Ronald Reagan governava o país pela segunda vez com intervenções políticas que geraram um grande boom para a economia norte-americana, é Jordan Belfort a figura representativa máxima desta prosperidade econômica, vivendo o exagero, o obsceno sonho americano que enfeitiçou a maioria dos empresários da época. E como o próprio personagem se justifica: “É obsceno, em um mundo normal. Mas quem gostaria de viver lá?”


Nota: 9,5


Ficha Técnica

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)- 180 min
Estados Unidos– 2013
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Terence Winter, baseado no livro autobiográfico de Jordan Belfort
Elenco: Leonardo Dicaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Jean Dujardin e Matthew McConaughey

Estreia 24/01


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