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Cena do filme "Ninformaníaca - Volume 1"
Na época do lançamento de Melancolia (2011), o diretor ex persona non grata do Festival de Cannes, Lars Von Trier, em uma entrevista publicada em uma revista brasileira semanal de grande veiculação, foi perguntado sobre sua motivação para ter feito um filme tão depressivo; a resposta dele deu a entender que o cineasta estava realmente em depressão, e estaria transformando-se em uma “esponja” de água que passarinho não bebe.

Pois bem, possivelmente assim nascia o termo “Trilogia da Depressão”, iniciado em 2009 com Anticristo, passando pelo já citado Melancolia e agora, o prólogo do fim – Ninfomaníaca Volume I. Apesar de possuir um título mórbido, o longa parece demonstrar um lado mais harmônico em relação aos dois títulos anteriores. Há espaço para risos em certos diálogos, inclusive, uma cena ao som de Born To Be Wild (Steppenwolf) entre as duas amigas adolescentes, B (Sophie Kennedy Clark) e a protagonista Joe (na fase jovem, Stacy Martin), disputando quem transa com mais homens dentro de um trem, com direito à uma premiação adocicada: um saco plástico cheio de chocolates.

Sob o comando dos personagens, roteiro de "Ninfomaníaca" é um primor


A história da vida de Joe - o alter ego feminino do diretor dinamarquês - começa a ser dissecada a partir do momento em que ela (fase adulta, Charlotte Gainsburg) é encontrada desmaiada em uma ruela sombria e gelada pela neve por um pescador de idade chamado Seligman (Stellan Skarsgard) que a socorre, levando-a sua casa. E, momentos antes de se adentrar na literatura imagética, a personagem que se auto diagnostica ninfomaníaca, diz, passível de ser irônico: ”Receio que o relato será de cunho moral.”

Poster do filme "Ninformaníaca - Volume 1"Passando por cima da questão de ser imoral ou moral, melhor que isso, predomina o termo amoral. A todo instante de Ninfomaníaca, o autor escreve em melodia com a câmera nos mínimos detalhes, repletos de simbologias, sobrepondo a questão sexual, apenas transmitindo a sua mensagem, salvo o exercício de câmera levemente vaidoso no início, elevando a história para um lado psicológico da natureza humana e sua adição, em uma emaranhada, mas bem explicada, série de parábolas vistas pelo personagem Seligman, que cumpre o papel do espectador sem se restringir a passividade, interagindo simultaneamente com o relato. Como quando observou a descrição da primeira vez em que ela perdeu a virgindade para Jerôme (Shia Labeouf) referindo a soma dos números de entocadas na vulva e região traseira como parte de um teorema. 

Já em outro capítulo, a tríade dos amantes de Joe – F, G, J - construídos a partir da personalidade dela, alicerceando a composição polifônica do roteiro, traça-se um paralelo com a música, o qual o órgão é literalmente o seu instrumento, compostas por três notas; ou tocadas separadamente por três homens.

No capítulo seguinte, um pouco exagerado, mas fundamental para o Volume II, em que a jovem se envolve com um homem casado e sua mulher, Mrs.H (Uma Thurman), ao descobrir, entra em seu apartamento com os três filhos, compondo uma cena que atinge o limite da ambiguidade. Não se sabe se ri ou se espanta.

A sua adoração pelo pai (Christian Slater) e a rejeição pela mãe (Connie Nielsen) podem estar explicados em livros escritos por Freud e Jung, mas o sentido dado em Ninfomaníaca é fazer um rascunho para abordar o vício de Joe. Desde sua infância, Joe já se via como uma pessoa especial que curtia com intensidade o pôr do sol. Ao contrário de outras pessoas, ela não aceita o término deste instante, o momento radiante, sublime; no entanto, paradoxalmente ela não sente nada positivo, somente tristeza, culpa, dor e infelicidade. Esqueça o amor, diz o cartaz, mas não esqueça de amar a si mesmo, e sim, a afirmativa possui cunho moral.

                                                    
Nota: 9



Ficha Técnica

Ninfomaníaca – Volume I (Nymphomaniac - Volume I)- 118 min.
França, Bélgica, Alemanha e Dinamarca– 2013
Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin, Shia Labeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Connie Nielsen e Sophie Kennedy Clark

Estreia10/01

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