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Cena do filme "Serra Pelada"Depois de uma experiência frustrante em Hollywood com o suspense 12 Horas, a qual não pôde ensaiar dentro do set de filmagens com os atores, Heitor Dhalia retoma as rédeas de seu trabalho autoral na produção nacional Serra Pelada para contar a história de dois amigos de infância, Joaquim (Júlio Andrade, como de habitual, muito bem no papel) e Juliano (Juliano Cazarré), que abandonam São Paulo no final dos anos 70, em busca do sonho de ouro, no interior da maior mina a céu aberto dos tempos modernos, a floresta amazônica, com objetivo de se tornarem ricos.

O registro violento e fascinante sobre a febre do ouro que levou a maior concentração de homens (mais de cem mil) a um trabalho manual desde a construção das pirâmides egípcias torna Serra Pelada, filme que encerra o Festival do Rio 2013, o seu trabalho mais completo. Em seus filmes anteriores, Nina (2004), O Cheiro do Ralo (2006) e À Deriva (2009), o diretor e roteirista narrava histórias interessantes de pessoas comuns, ordinárias, sempre situadas em eventos específicos, mas que escapavam a um cenário histórico com um contexto universal.

Com personagens inesquecíveis, "Serra Pelada" é um retrato violento da cobiça humana


Poster do filme "Serra Pelada"O ponto de partida, a relação de amizade entre os dois amigos de infância, passa a se modificar por divergências ao longo dos anos; Joaquim quer enriquecer enquanto Juliano é tragado pelo habitat corrompido pelo governo e o desejo de assumir o posto de quase todos os barrancos da região, pertencentes ao Coronel Carvalho (Mattheus Nachtergaelle). Possuído pelo lugar, ele ainda cobiça sua mulher, Tereza (Sophie Charlotte), criando uma relação com ela de amor bandido da melhor espécie – “me bate que eu gamo”.  

 É a partir deste e outros desdobramentos (ocorridos na “Las Vegas da Amazônia” a partir da proibição de mulheres, álcool e armas em Serra Pelada) que são documentados muita violência, ambição, desejo e amizade. Através de grandes planos, observamos os formigueiros (garimpeiros) trabalhando manualmente com pás e picaretas enfrentando os perigos constantes de desmoronamento para gritar “Bamburrado!” (achei ouro). Enquanto os capitalistas – a hierarquia máxima do local – é quem ficava com a maior fatia do bolo.

Entre tantos maravilhosos personagens, destaca-se o ardiloso e misterioso Lindo Rico (Wágner Moura, um dos produtores do filme) que apesar de poucas aparições, ao fim da projeção, é um dos mais lembrados. E a partir deste personagem que brota o humor negro que fez com que O Cheiro do Ralo torna-se esplendido. Entre tantas barbaridades vistas, o seu personagem garante gargalhadas.

Cena do filme "Serra Pelada"Serra Pelada, pela forma como é construída a organização social da região, o estilo narrativo pela voz em off do personagem Joaquim, e a constante escalada dos personagens para subir ao poder, esbarram em temas que são indissociáveis a Cidade de Deus, alterando somente o espaço. O deslize a ser notado está em uma pequena lição de moral no epílogo quando o autor foge da narrativa central, forçando uma sensibilização ao público de como se deve viver e qual a melhor forma de descobrir quem é você. Nada que comprometa. A grande obra de Heitor Dhalia soube dosar um cinema popular e autoral como poucos.

  
Nota: 8,5


Ficha Técnica

Serra Pelada - 100 min
Brasil – 2013
Direção: Heitor Dhalia
Roteiro: Heitor Dhalia e Vera Egito
Elenco: Juliano Cazatré, Júlio Andrade,Wagner Moura, Sophie Charlotte, Mattheus Nachtergaelle



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