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Cena do filme "O Som ao Redor"

Em um bairro de classe média de uma grande cidade brasileira, pessoas comuns levam suas vidas normalmente, mas envoltas por ruídos desconcertantes, às vezes ensurdecedores. A cidade em questão é Recife, cenário de O Som ao Redor, longa-metragem de estreia de Kleber Mendonça Filho, vencedor do Festival do Rio 2012.

“O Som ao Redor” põe a classe média sob uma lente de aumento 


Situações prosaicas do dia-a-dia ganham uma dimensão distinta ao serem observadas mais de perto. A dona-de-casa carente, o casal buscando se acertar no amor, o jovem que rouba por prazer, todos fazem parte de uma comunidade com muito em comum e também muitas diferenças. 

João (Gustavo Jahn) é corretor de imóveis e herdeiro de uma família poderosa na região. Envolve-se com Sofia (Irma Brown), que tem seu carro arrombado por Dinho (Yuri Holanda) playboy primo de João, que rouba por prazer. Bia (Maeve Jinkings) é uma dona-de-casa que cuida dos filhos e do lar, mas não consegue dormir por causa de um cachorro da vizinhança que não para de latir. Clodoaldo (Irandhir Santos) é o líder de um grupo de segurança privada que oferece seus serviços aos moradores da rua. 

Camadas de significados fazem um filme desconcertante 


Em seu primeiro longa de ficção, o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho uniu o formalismo presente em seus premiados curta-metragens a diálogos extremamente coloquiais, provocando um estranhamento, um descompasso entre o que se espera e o que se vê. O clima tropical e o calor humano que se acredita fazerem parte da cultura nordestina desaparecem frente à arquitetura fria e impessoal, cada vez mais comum nos bairros emergentes das cidades brasileiras. Essa nova configuração arquitetônica ao mesmo tempo em que nivela, desconecta do passado e da história. 
Poster do filme "O Som ao Redor"

Do numeroso elenco, todo excelente, destacam-se Irandhir Santos, que faz Clodoaldo com sutileza, apresentando um comportamento dúbio. Também vale mencionar Maeve Jinkings, que faz as cenas mais difíceis e Gustavo Jahn, cujo personagem costura toda a narrativa. Como não poderia deixar de ser, o maior destaque é o desenho de som, que rompe o naturalismo dos diálogos e acrescenta uma camada rica e plena de significados. A narrativa fragmentada também contribui para uma sensação de frieza, dando impressão de falta de conexão entre os diversos núcleos que no final formam uma história multifacetada. Cabe ao espectador então dar sentido a todas as informações visuais e sonoras. 

O único reparo é o autor ter cedido à tentação de fornecer pistas sobre a origem da família, mostrando um velho engenho de açúcar, típico da cultura pernambucana. Esse detalhe a parte, O Som ao Redor é uma alegoria da vida urbana universal. 

Nota 9 


Ficha Técnica 

O Som ao Redor – 131 min. 
Brasil – 2012 
Direção: Kléber Mendonça Filho 
Roteiro: Kléber Mendonça Filho 
Elenco: Gustavo Jahn, Irandhir Santos, Irma Brown, J. W. Solha, Maeve Jinkings, Sebastião Formiga, Lula Terra, Yuri Holanda

Estreia 04/01


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