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Cena do filme "A Negociação"Empresário bem-sucedido, sessentão, voltado à filantropia e à família é “oráculo” no meio da terra de cegos que os Estados Unidos se tornaram depois da quebra econômica de 2008. Dá entrevista à televisão aconselhando olimpicamente com sorrisos irônicos e biquinhos sedutores sobre mercado financeiro tal qual modelo narcísico que é, digno de capa de revista e respeitabilidade de todos. Chega à mesa plena de familiares para seu aniversário com falas, discursos e gestuais característicos dessa personalidade icônica tão usada pelo cinema americano. 

Tal figura é incorporada por Richard Gere, ator profícuo em personagens similares numa dezena de filmes de sua carreira. Há outros componentes do caráter dúbio do magnata Robert Miller que se apresentarão no decorrer do filme dando chances a uma atuação um pouco mais densa que a média de sua filmografia, mas não é desta feita que o galã hollywoodiano sobe ao primeiro escalão dos atores de suas bandas, mesmo com a indicação tão badalada ao Globo de Ouro de Melhor Ator. Pensando que concorre com um gigante como Daniel-Day Lewis personificando Abraham Lincoln, e ótimos atores como Denzel Washington, John Hawkes e Joaquin Phoenix, a surpresa e a compaixão nos tomam de assalto.


Um acidente e uma guinada no filme


Poster do filme "A Negociação"
A Negociação (“Arbitrage”, no original; um termo mais técnico relativo ao contexto do mercado financeiro), de Nicholas Jarecki (pouco rodado, lembrado por “Informers – A Geração Perdida”), estabelece desde o início a premissa de que veremos o percurso de Robert Miller aparentemente frio como mármore, mas às voltas com perdas de investimentos, venda de sua empresa e a possível prisão por fraude. Além dos problemas financeiros, o businessman se enredará na teia de sua amante interpretada pela blasé Laetitia Casta (de Gainsbourg– O Homem que amava as mulheres). Tal relação será marcada por um fortuito acidente que dará o tom do roteiro e que fará contraste claro com a aparente vida de tranquilidade familiar e profissional.

O personagem que poderia ser fonte de uma multiplicidade de nuances não alça voo. Não se sabe se por conta do roteiro ou pela atuação do Sr. Gere. O fato é que seu protagonismo exacerbado dá poucas oportunidades para uma atriz do quilate de Susan Sarandon aparecer, algo que só se vê ao fim do filme, numa cena importante para o possível fechamento. Além dos dois atores principais, há Tim Roth com seus trejeitos habituais e repetitivos como o Detetive Bryer, lembrando e muito o seu protagonista na recente série Lie To Me e outros menos votados como a filha de Robert Miller, Brooke, personificada por uma Brit Marling (Outra Terra) ainda em crescimento e, aparentemente, deslocada. 

Atuações entre fracas e medianas, diálogos feijão-com-arroz para fazer o roteiro andar, uma introdução usando fórmulas hollywoodianas para jogar na cara do espectador um elemento surpresa, um recheio bem feito com vários esboços de tensão em boas quantidades que poderiam ser bem trabalhados para fazê-los o cerne do filme e, infelizmente, um final em aberto que poderia ser impactante realçando jogos de poder, conflitos internos e deixar questões como “que rumo tomará Miller e seu narcisismo”? Entretanto, o plano final não deixa o espectador ávido por respostas, querendo conversar sobre o caso, mas apenas o faz descartar o que viu rapidamente.

Richard Gere como chamariz de “A Negociação”. Funcionará?    


O cartaz de A Negociação com o ator Richard Gere em primeiríssimo plano, a sua indicação ao Globo de Ouro e os releases apresentados à grande imprensa mostram que a divulgação se calca na persona/celebridade e suas caras e bocas conhecidas do grande público. O chamariz de um Richard Gere com “upgrade artístico” pode pegar pelo pé alguns espectadores otimistas em ver ultrapassadas suas atuações fracas ou medianas no cinemão comercial. A propaganda acaba por ser enganosa e o filme é mais do mesmo, sem diálogos, cenas ou atuações marcantes. Para os não muito exigentes, um ingresso que não comprometerá a noite, embora esta, possivelmente, entre para o rol daquelas feitas sob medida para o baú empoeirado da memória.

Por Rafael Fabro

Nota: 5


Ficha Técnica:

A Negociação (Arbitrage) - 107 min.
EUA/Polônia - 2012
Direção: Nicholas Jarecki
Roteiro: Nicholas Jarecki 
Elenco:  Richard Gere, Susan Sarandon, Tim Roth, Brit Marling, Jennifer Butler, William Friedkin, Monica Raymund, Laetitia Casta.

Estreia 21/12



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