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Cena do filme "Cosmópolis"
O novo filme de David Cronenberg (Um Método Perigoso, 2011) propõe uma reflexão sobre a forma de vida da sociedade contemporânea e suas consequências sobre o ser humano. Para fazer a análise, o público acompanha um dia na vida do jovem bilionário, Eric Packer (Robert Pattinson, de Bel Ami: O Sedutor). Com a crise financeira global de 2008 - retratada no ótimo documentário Trabalho Interno, 2011- e a extensão dela em países europeus como Grécia, Itália e Espanha, Eric, de apenas 28 anos, é o alvo perfeito para que seja construído o argumento fílmico em Cosmópolis. 

Personagem de Robert Pattinson é o alvo perfeito para elaborar "Cosmópolis"



Eric Packer não é uma pessoa que exista, ele é um molde, um paradigma, um personagem icônico de um mundo decadente aos olhos de Cronenberg. O rapaz representa o pós-neoliberalismo econômico onde tempo não é mais dinheiro, pelo contrário, dinheiro é o tempo. Vivendo em sua silenciosa limusine, que além de ser automóvel é consultório médico, motel – na aparição sem pudores de Juliette Binoche, de Elles -, escritório, banheiro e lar - apesar de possuir um apartamento com dois elevadores -, ele se isola de todos da cidade e toma as decisões mais importantes do mundo na bolsa de valores, enquanto o presidente americano, nesta fase atual do sistema capitalista, é uma mera representação que Eric praticamente desconhece. 

E não é fortuito que em Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o vilão Bane (Tom Hardy) escolha justamente a bolsa de valores para subverter a ordem, paralisando o mundo financeiro, enquanto no filme do diretor canadense, ditados por sutilezas e metáforas, anarquistas invadem lanchonetes com ratos mortos nas mãos, sabotam painéis de comunicação das ruas de Manhattan para pronunciar “O espectro que assombra o mundo”. 

Melhor filme de Cronenberg, “Cosmópolis” é mais completo na abordagem do tema habitual do diretor


Cosmópolis não se restringe a dissecar em plano macro o que acontece na economia mundial, enquanto as análises econômicas e teóricas sobre o mundo (eis quando aparece na limusine a personagem de Samantha Morton) são fomentadas. A vida particular do protagonista também é relatada, o modo de vida mecânica, notadamente na relação com sua esposa (Sarah Gadon, de Um Método Perigoso – 2011 -, do mesmo cineasta) e a falsa aparência em estar sempre bem, tentando esconder a alta ansiedade constante, descarregada frequentemente em sexo. A urgência de causar impacto, com todo seu poder financeiro, comprar uma capela inalienável e que é patrimônio histórico realmente o excita. 

Poster do filme "Cosmópolis"
Esta necessidade de cobrir o vácuo que assola seu ser, o personagem de Pattinson pode ser visto como o solitário Travis Bickle (Robert De Niro) em Táxi Driver (1976). Embora um dirija um táxi e o outro tenha um motorista particular na direção de sua limusine residencial, os dois são semelhantes, não somente por serem nova iorquinos; os dois precisam de colisão para dar sentido a suas vidas, principalmente quando Eric perde uma grande fortuna para o mercado chinês, quando então vemos a queda de um império. Sendo assim, o corte de cabelo assimétrico não importa mais.  

Eric Packer é o Icaro da mitologia grega, filho de Dédalo que construiu asas para ele voar e deixar Creta, mas que morreu por chegar próximo demais do sol. O poder sem remorso, ambição desenfreada leva o jovem empresário à falência e a um enquadramento final de arrepiar antes do término do longa, depois de uma longa conversa preparatória sobre o paradigma da sociedade contemporânea com seu ex-funcionário Benno Levin (Paul Giamatti, de Tudo Pelo Poder, 2011) em um incrível clímax. 

Com um tema atual, David Cronenberg consegue abranger a síndrome humana de maneira macro e simultaneamente micro, e é um panorama detalhado e bastante situado do que acontece nos tempos de hoje, e talvez esta seja a sua melhor obra ao longo de 46 anos de cinema, esmiuçando magnificamente e abrangendo o tema como já havia trilhado em filmes anteriores, ExistenZ (1999), Videodrome (1983), Crash- Estranhos Prazeres (1996 ) e Scanners - Sua Mente Pode Destruir (1981). Cosmópolis é uma tentativa acertada, o mais completo filme que o cineasta conseguiu realizar. 

Para conseguir tal êxito e fazer com o filme se tornasse atraente aos olhos dos espectadores, Cronenberg se fez valer de dois itens, a habilidade inata da técnica de filmagem e roteiro, com um filme repleto de diálogos de aparentes digressões, o plano próximo se mantém até o final, e a outra; a escolha do atual galã do cinema, Robert Pattinson, seu filme ficou mais bem cotado com a aposta na popularidade do ator no mercado hollywoodiano.


Nota: 9,5


Ficha Técnica


Cosmópolis (Cosmopolis) – 109 min
Itália, França, Portugal e Canadá– 2012
Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg
Elenco: Robert Pattinson, Juliette Binoche, Paul Giamatti, Samantha Morton, Sarah Gadon , Jay Baruchel, Kevin Durand, K´Naan, Mathieu Almaric

Estreia: 07/09


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