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Cena do filme "Histórias Que Só Existem Quando Lembradas"
Histórias Que Só Existem Quando Lembradas agradou a um bom número de juízes de procedências variadas, tendo recebido 27 prêmios internacionais. Trata-se do primeiro longa-metragem da diretora Julia Murat, que também assinou o roteiro com Maria Clara Escobar e Felipe Sholl. Antes de realizar o filme, Murat havia feito uma pesquisa documental em cidades do Vale do Paraíba carioca. Mesmo sendo uma ficção, a obra acabou sendo beneficiada pela pesquisa nos objetos de cena, hábitos e vestuário.

Contudo, não se trata propriamente de um filme histórico ou documental, embora as rememorações possam informar sobre os costumes de outras gerações. É uma ficção sobre uma cidade perdida e isolada do mundo moderno, tendo como único acesso uma estrada de ferro abandonada e uma população minguada, envelhecida e parada no tempo. O filme tem intenção de ser sobre cidades que exerceram papel econômico no período cafeeiro e que depois entraram em declínio, mas também pode ser visto como uma ode à fotografia.

"Histórias Que Só Existem Quando Lembradas" marca o eterno retorno ou o reinado dos hábitos


Pôster do filme "Histórias Que Só Existem Quando Lembradas"
Assim como o cinema também pode ser visto como um jogo de luzes e sombras em movimento, os hábitos engessados do punhado de habitantes de Jotuomba surgem da escuridão por meio do lampião de Madalena (Sonia Guedes). Mulher que parece não dormir, noite após noite escrevendo cartas de amor ao marido morto e fazendo os pães para a mercearia da comunidade. A rotina engessada não se limita apenas às atividades diárias, sequenciadas com muita pontualidade, mas também aos diálogos, que perderam seus significados depois da repetição continuada.

Um exemplo desse tipo de diálogo é o que liga Madalena a Antonio (Luiz Serra, de Trabalhar Cansa). Os acontecimentos se sucedem mecanicamente como se fossem a engrenagemde um relógio, com as roldanas girando continuamente, uma empurrando a outra. Como se tivesse passado por um portal mágico, Rita (Lisa E. Fávero) surge nacidade e, com uma delicadeza que vem de sua paixão pela fotografia de trens sucateados e coisas velhas, muda alguns detalhes dessa engrenagem.

Nesses termos, a representação do eterno retorno nietzscheano torna-se bastante literal. Murat constrói uma jornada de atividades que dá a impressão de estar em incessante repetição. Também transmite o tédio dessa rotina engessada da qual vai apresentando pequenas porções. Mesmo assim, a representação do eterno retorno nessa comunidade carrega muito do ritmo da velhice de seus habitantes, o que dá uma sensação de tédio em alguns momentos do longa. Há também algumas lacunas no roteiro que se prestam a interpretações.

O que mostra uma fotografia


Rita leva a arte da fotografia a Jotuomba, após muitos anos sem a visita de um fotógrafo, e mostra o encanto que exerce sobre as pessoas. Um ponto muito positivo do roteiro, inclusive, diz respeito ao caráter documental que dá à fotografia. O papel que as pessoas da comunidade lhe atribuem ou atribuíam, suas vivências com essa arte e também as técnicas mais arcaicas e artesanais de fotografia utilizadas por Rita.

O relacionamento das pessoas com as fotos e o ato de fotografar certamente promove mais alterações na rotina da comunidade que a juventude da fotógrafa. As fotografias feitas pela protagonista são mostradas na tela em alguns momentos, carregando o filme de uma sensação de nostalgia. Histórias Que Só Existem Quando Lembradas tem boa fotografia, embora algumas delas transmitam uma sensação de distanciamento, tanto no espaço quanto no tempo, por falta de foco. Fotografias desfocadas ou com pouca nitidez costumam transmitir sensação de cansaço.

Por: Angela Gomes
Nota: 8 





Ficha Técnica

Histórias Que Só Existem Quando Lembradas – 98 min
Brasil, Argentina, França – 2011
Direção: Julia Murat
Roteiro: Julia Murat, Maria Clara Escobar, Felipe Sholl
Elenco: Sonia Guedes, Lisa E. Fávero, Luiz Serrao, Ricardo Merkin, Antônio dos Santos, Nelson Justiniano, Maria Aparecida Campos, Manoelina dos Santos, Evanilde Souza, Julião Rosa, Elias dos Santos, Pedro Igreja

Estreia: 6 de julho 

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