6


O diretor francês Cristophe Honoré é um dos mais cultuados cineastas franceses da vanguarda atual pós nouvelle vague: seu cinema é de autor. Responsável pela direção do elenco, ele também redige o roteiro das tramas, que geralmente abordam a temática do amor e de todas as ilações que um sentimento tão difícil de ser abordado e de se definir possui. Pelo menos quando não se tenta explicar em maneira simples e óbvia, e certamente esta não é a pretensão de Honoré em seus filmes. Por conta disso, seus longas são bastante peculiares, únicos, podendo ser inclusos no gênero Cult, ainda mais quando se utiliza musicais ao longo da projeção. Para o bem ou para o mal de quem o assiste, é, de fato, inovadora a sua maneira de contar uma história.

Cena do filme francês "Bem Amadas"

Elenco de "Bem Amadas" presume ótimo filme, mas fica por aí


Bem Amadas foi o filme de encerramento do Festival de Cannes 2011 e é agraciado com grandes estrelas do cinema europeu, como Ludivine Sagnier (de Swimming Pool) e Louis Garrel (de Um Verão Escaldante), o atual galã do cinema francês e ator-assinatura de Honoré. A nova película conta também com a presença do diretor de Estranho no Ninho e Amadeus (vencedor do Oscar de melhor filme em 1984), Milos Forman, que desta vez só atua, e a símbolo sexual dos anos 1960, Catherine Deneuve, que recentemente esteve na comédia francesa Potiche: Esposa Troféu. E por último, e não mesmo importante, sendo uma das protagonistas, Chiara Mastroiani (filha na vida real de Marcelo Mastroiani e Deneuve). Com um elenco de primeira e sob a regência de um diretor de mão cheia, o filme não tinha como ser ruim.

Contudo, não foi o que aconteceu. A forma de explorar as aventuras e desventuras amorosas de mãe (Deneuve e, mais jovem, como Sagnier) e filha (Chiara) ao longo dos anos entre 1960 e 2000 – enfastia. Não pelas atuações, mas cada vez que o tempo cronológico dentro do filme passava, um letreiro em fontes garrafais anunciava a data de onde a história prosseguiria, desnecessariamente, pois, os cenários das cidades, o envelhecimento dos atores, os vestuários, já indicava a passagem de tempo. O espectador não precisa receber esta informação novamente, uma vez estando bastante explícita.

Cartaz brasileiro do filme francês "Bem Amadas"
O musical, bastante utilizado nos filmes de Christophe Honoré, desta vez entrou em uma maçante hipérbole, e o pior, entediando o espectador. Não que os atores estivessem desafinados neste ofício, eles se saíram bem, mas no propósito. Quase sempre quando terminava uma cena, um ator protagonista em questão cantava para expelir a ação psicológica interna dos personagens, e, às vezes, por muito tempo, causando tédio. O que houve com o cinema francês intimista que sempre buscou nos silêncios dizer mais que mil palavras? A cena é um artifício supérfluo e apenas sintetiza o que já foi passado, impedindo assim o público de usar a imaginação. O recurso poderia ser mais proveitoso se fosse algo parecido como em A Bela Junie, utilizado uma única vez e bastante justificado para a ação ulterior nefasta.

Mau uso do cinema autoral faz de "Bem Amadas" um filme entediante


O cinema autoral vive em um constante dilema entre o capricho de seu realizador e em como acarretará isso ao público, traiçoeiro se não souber usufruir bem. A dialética entre se fazer arte por um cinema de autor muitas vezes sucumbe a uma chance de gratificar a plateia, em detrimento de um devaneio exclusivo e que o só o criador o concebe, e quando isso ocorre, e é o caso de Bem Amadas, o filme se torna mesquinho e egoísta. Uma pena, com tanto desperdício de talento visto em cena.

Ainda sim, a falta de propósito aparente é justificada e válida na obra, pois a fragilidade, angústia, apatia e depressões das personagens pela busca da idealização do amor são convidativas e interessantes, mas não trazem novidade ao gênero muito bem dissecado pelos mestres François Truffaut e Jean Luc Godard, Claude Chabrol, entre outros, que sabiam retirar as nuances de suas personagens melancólicas revestidas por seus olhares blasés. Diante de tanto experimentalismo, outro grande expoente do cinema francês atual, Gaspar Noé parece conseguir mesclar esta dicotomia (cinema autoral x cinema inteligível) em filmes como Irreversível (2002) e Enter the Void (2009), nos quais consegue, sim, ser autoral, original e acrescentar algo ao público.

Nota: 2,5 





Ficha Técnica

Bem Amadas (Les bien-aimés) – 139 min
França – 2011
Direção e Roteiro: Christophe Honoré
Elenco: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Ludivine Sagnier, Louis Garrel, Milos Forman, Paul Schneider

Estreia: 13 de julho 

O Cinema está na Rede e também no Twitter O Cinema está na Rede e também no Facebook

Postar um comentário

  1. Gosto bastante dos filmes do Honoré (Les Chasons d'Amour é meu filme preferido) e asssti Les Bien-Aimés há quase um ano, em sua estreia na França. Achei seus comentários bastante válidos, contudo não achei o filme nada entediante. Não penso nele como cinema autoral, inclusive há muito de comercial nele. Mas devo dizer que gostei muito, comprei o cd (assim como com Les Chansons) e com certeza vou rever o filme aqui no Brasil (mesmo tendo já comprado o dvd na França).

    abs
    escrevendoloucamente.blogspot.com

    ResponderExcluir
  2. Também nao achei nada entediante Aline, concordo contigo. Adorei tanto que vou rever no cinema. Por mais influenciado por Godard, como de fato Honoré é, não vejo pretensão de fazer de bem amadas um filme a la Nouvelle Vague. É um filme que fala de liberdade.
    abraço.

    ResponderExcluir
  3. Também não achei nada entediante, não acho válido expor pontos negativos do filme embasado somente no ponto de vista do tal !A forma que você armazena e presência o conteúdo é o diferencial para um bom entedimento e exploração da criativade ligada á história.

    ResponderExcluir
  4. Pretendo ver o filme esta semana. Depois direi se achei entediante. A princípio, gostei de outros comentários que li a respeito de "Bem Amadas". Não conheço o trabalho de Honoré. Aliás, mesmo me interessado tanto por cinema, nunca ouvi falar dele... Oh! Meu Deus, vou procurar saber sobre ele imediatamente.
    Júnia

    ResponderExcluir
  5. Gostei...toda forma de amor traz sofrimento, e fica a pergunta, o que é melhor amar ou ser amado?

    ResponderExcluir

 
Top