2


Febre do Rato é uma expressão comum no Recife Antigo, que quer dizer algo como “fora de controle”. Partindo daí, o cineasta Cláudio Assis surge com seu novo filme, Febre do Rato, ganhador de oito prêmios do Paulínia Festival de Cinema, em 2011, entre eles o de melhor filme de ficção, melhor ator para Irandhir Santos e melhor atriz para Nanda Costa. O longa apresenta a vida de pessoas comuns conectadas pelo personagem incomum de um poeta, que simboliza uma espécie de elo unindo todo um grupo de amigos, na missão de viver em uma sociedade alternativa onde a liberdade e a anarquia são os principais fatores regentes do cotidiano.

Com roteiro de Hilton Lacerda e a interessante fotografia de Walter Carvalho (diretor de Raul: O Início, o Fim e o Meio), Febre do Rato é uma proposta crítica ao cinema esvaziado de significado que foi naturalizado pela ótica comercial, assim como uma nova forma – dura e ao mesmo tempo poética – de encarar a noção de liberdade da sociedade na qual estamos todos inseridos, e a qual o poeta Zizo, personagem principal da trama, ataca com megafones e jornais independentes.

Febre do Rato é acidez em forma de poesia


Matheus Nachtergaele em cena do filme "Febre do Rato"
Em uma parte pobre de uma Recife que não se encaixa nos cartões postais, o filme nos apresenta o poeta Zizo (Irandhir Santos, de Tropa de Elite 2), responsável pelo jornal independente intitulado Febre do Rato, no qual o próprio divulga sua poesia, além de deixar impressas suas inquietações e revindicações por uma sociedade mais liberal e anárquica. Vivendo com seus amigos em uma espécie de retiro da realidade, Zizo, Pazinho (Matheus Nachtergaele, de O Bem Amado), Vanessa (Tânia Granussi), Moca Bole (Juliano Cazarré, de Assalto ao Banco Central) e os demais se relacionam de uma forma que beira a inocência, compartilhando drogas, álcool e seus próprios corpos de forma livre e aberta, sem regras e sem moderações sociais.

Quando Zizo se interessa pela estudante Ineida (Nanda Costa, de Sonhos Roubados), começa a se influenciar cada vez mais pelas negativas de suas propostas sexuais da bela jovem. Em uma conversa com Pazinho, Zizo inclusive declara estar “apaixonado pelo desprezo afetivo de Eneida”, e é isso que talvez venha a despertar realmente a Febre do Rato em Zizo, culminando na série de fatos que ocorrem durante o primeiro embate real com o mundo externo nas comemorações civis do 7 de setembro.

Zizo, porém, durante o desenrolar da trama, parece perdido em sua própria liberdade amplificada e perde o sentido de suas próprias reivindicações, já que não apresenta nada concreto para alimentar a mudança e se recolhe à sua sociedade alternativa onde tudo é normalizado, e permitido, de forma honesta e anárquica. Talvez essa seja sua principal inquietude, depois das geradas pela tensão sexual de sua musa Ineida, que insiste em sua postura de negar sexo ao poeta, apesar de estar hipnotizada por suas palavras. Febre do Rato, através do megafone de Zizo, grita ao espectador essa curiosa e transgressora visão social, seus reflexos na tela e na mente de quem assiste ao longa.

A metalinguagem transgressora de Febre do Rato gera polêmica


Cartaz do filme "Febre do Rato"
Febre do Rato é claramente uma crítica ao cinema esvaziado de proposta artística que se tornou convencionalizado pela produção cinematográfica comercial, e aponta isso de forma latente já na técnica empregada. A opção por trazer o filme em preto e branco ou o grande número de cenas filmadas de cima, horizontalizando as relações entre os personagens, já indicam antes do próprio roteiro a intenção de deixar claro ao espectador que ele necessitará de um outro olhar, além do costumeiro, para entender o que a obra fala e como o faz, além de criar uma relação delicada entre forma e conteúdo na missão de passar a sua mensagem. No longa de Cláudio Assis o cinema é tratado novamente como um processo artístico, tanto na forma como se apresenta quanto no retorno reflexivo que gera.

Um ponto alto é o elenco afiado. Irandhir Santos dá corpo de forma autêntica e genuína ao seu poeta Zizo, o responsável pelo periódico-manifesto custeado pelo próprio e que dá nome ao filme. Outro foco de elogios é a relação entre Matheus Nachtergaele e Tânia Granussi, interpretando, respectivamente, o coveiro Pazinho e a travesti Vanessa. A inquietação silenciosa de Pazinho por não ter base para lidar com a própria situação é tão intrigante quanto a espontaneidade e a delicadeza bruta que a relação entre os dois passa. Juliano Cazarré também faz uma boa atuação ao mostrar uma veia cômica de forma velada através de trejeitos, modo de falar, conversas e piadas politicamente incorretas. Enfim, o elenco como um todo faz um ótimo papel.

O grande número de cenas de nudez e sexo podem ser encaradas como agressivas e desnecessárias por muitos, mas na verdade são importantes para construir a atmosfera na qual a história se desenrola. É preciso que o filme choque o espectador até que em dado momento não choque mais. Febre de Rato trata o sexo de forma naturalizada, como um impulso carnal. O que não quer dizer que o filme não trate da temática do amor, pelo contrário. É a obra de Cláudio Assis com maior influência da representação do amor, indiferentemente a qual forma ou expressão que ele esteja sendo apresentado.

Cláudio Assis conta a história da sociedade igualitária esquecida de um poeta, onde os limites sociais normativos não comprimem a expansividade pessoal e coletiva, e se seu filme não é panfletário, enaltece de forma ácida e dura a beleza que há por trás de uma vida livre e desregrada. Não há como negar que é mais um longa transgressor do diretor e, através dessa poesia recortada de um cenário improvável, relembra o cinema de seu título de sétima arte, pela técnica, pelo conteúdo e pelo retorno reflexivo que atinge invariavelmente quem o assiste sem vendas nos olhos. Se Zizo grita em seu megafone a mensagem de protesto “Abaixo a reciclagem, viva a lapidagem”, certamente temos em Febre do Rato um diamante bruto.

Nota: 9,5 





Ficha Técnica

Febre do Rato – 110 min
Brasil – 2012
Diretor: Cláudio Assis
Roteiro: Hilton Lacerda
Fotografia: Walter Carvalho
Elenco: Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Angela Leal, Maria Gladys, Conceição Camarotti, Mariana Nunes, Juliano Cazarré, Victor Araújo, Hugo Gila, Tânia Granussi

Estreia: 22 de junho 

O Cinema está na Rede e também no Twitter O Cinema está na Rede e também no Facebook

Postar um comentário

  1. quero assistir o mais rápido possível!!

    ResponderExcluir
  2. esse meio ponto que faltou na avaliação do crítico é a margem de avaliação do público: de 0,0 à 0,5...

    ResponderExcluir

 
Top