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Cena do filme "Romance de Formação"
Tanto para escrever sobre um filme tão tocante que me deixo começar com o poema “O Haver”, de Vinicius de Moraes para engrenar numa crítica que está mais para um rascunho de impressões desavergonhadas e encantadas. Em dado momento de Romance de Formação, escutamos o poetinha declamando “resta essa obstinação em não fugir do labirinto/ na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente/ e essa coragem indizível diante do grande medo/ e ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva” e em cada palavra está a essência da busca dos quatro jovens universitários retratados pelo belo documentário realizado por Julia de Simone, Aline Portugal e Marcelo Grabowsky. Juventude e suas buscas plenas de desejo e angústia na tela e atrás das câmeras. Um trabalho metalinguístico que mereceria um olhar atento só pela coragem indizível de novos realizadores e sua inovadora obra-espelho. Só que além da escolha do tema, de um título certeiro em toda a riqueza de significações, há uma acuidade técnica que dá gosto. Talento e engenho de ambos os lados do espelho.

Bons trabalhos anteriores dos realizadores de “Romance de Formação”


Julia de Simone, Aline Portugal e Marcelo Grabowsky são os responsáveis por "Romance de Formação"
“Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura/ essa intimidade perfeita com o silêncio”. O princípio da poesia de Vinicius parece apontar para os trabalhos de iniciação dos cineastas da produtora Mirada Filmes (co-produziu junto à produtora Matizar, casa de outros ótimos documentários, exemplo disso é o excelente Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho), como Encanto, Sinfonia, Estudo para o Vento e Testemunha 4. Os momentos em que se articulam música e silêncio são caros à trupe e voltam em Romance de Formação desde o primeiro momento. Deparamo-nos com o primeiro dos quatro personagens (o pianista Fábio Martino) diante de uma plateia, um maestro, uma orquestra, um piano e um concerto para começar. A tensão diante de uma gigantesca responsabilidade é notória e prepara o espectador para a nota de abertura e as seguintes que vão levar personagens até o último acorde e aos aplausos.

Primeiros passos dos quatro jovens universitários para a pedregosa formação


Pôster do documentário "Romance de Formação"
A apresentação de cada um traz a autorização, a confecção do laço, seja com a família ou com os professores, como o primeiro passo para a pedregosa formação. Para o pianista Fábio (estudante em Karlsruhe, na Alemanha), a carta de recomendação da professora num alemão rebuscado e elogioso; para Wilian Cortopasi (graduando em Química na PUC-Rio), uma carta à família deixando claro o seu desejo de sair de Minas e estudar no Rio de Janeiro para descobrir remédios e curas. Aliás, o elo familiar e afetivo é sustentado de diversas maneiras no decorrer do roteiro: através de ligações telefônicas, aplicativos de computador, de raras visitas, de fotos expostas aqui e acolá (bonita a cena em que são filmados os livros e as fotos do que se supõe ser a família de Victoria Saramago, romancista e crítica literária, estudante em Stanford, EUA), de encontros românticos à distância e, sobretudo, do desencontro marcado na ausência do outro, na solidão, na angústia diante do desconhecido, outras línguas, na saudade, no exílio, na neve. Não é para menos que uma das passagens mais marcantes seja num quartinho minúsculo de Harvard, onde Caetano Altafin estuda Direito Corporativo, em que ele mesmo filma seu desamparo diante de uma janela que dá para uma paisagem nevada e vazia enquanto escuta o Vinicius do início desse texto.

“Romance de Formação”: uma poesia de imagens notável


Há em meio a belos corredores labirínticos (como conta extasiada Victoria ao transitar pela biblioteca de Stanford), metáforas a granel: variadas opções, combinações infinitas, muitos livros a ler, partituras a decifrar, fórmulas químicas a estudar, tijolos de Direito a mastigar, tanto a se fazer e caminhos para escolher. Os três autores desse documentário têm pela frente uma longa jornada assim como os quatro pintados na tela. Wilian parte do IME para a PUC e agradece junto à família, Caetano consegue emprego como advogado em Nova York, Victoria publica um livro e dá sua noite de autógrafos e Fábio termina seu concerto (fio da meada do filme) chorando, sorrindo, recebendo cumprimentos e aplausos efusivos. O longa vai além do retrato de uma mera busca de sucessos profissionais ou de como funciona o estudo e suas instituições atualmente. Seria reducionista e desmerecedor tratá-lo somente assim, pois faz mais: narra a trajetória humana em seu romance de formação numa poesia de imagens notável.

Nota: 9 






Ficha Técnica

Romance de Formação – 74 min
Brasil – 2011
Direção: Julia De Simone 
Roteiro: Aline Portugal, Julia De Simone, Marcelo Grabowsky, Ricardo Pretti
Com: Caetano Altafin, Fabio Martino, Victoria Saramago, Wilian Cortopassi

Estreia: 11 de maio 

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  1. Maggy C. Azevedo16 de maio de 2012 19:17

    Maravilhoso, autêntico, realista........Enfim, não existem personagens, textosa decorados, e sim a vida mostrada em toda sua nudez, sem maquiagem. Em todos os momentos a necessidade de lutar muito pelo que se quer. Mostrar que é possível! Jamais desistir, mesmo quando tudo à volta parecer conspirar a favor do desânimo e descrença. A superação em uma forma quase lírica. Que bom, apesar de sabermos, podemos vivenciar que sempre haverá uma luz na escuridão. Basta perseverar. Tudo muito lindo. Orgulho de ser brasileiro e não desistir nunca. Parabéns a todos! Sucesso!

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