0


Luz nas Trevas mantém o vigor crítico e debochado do filme que o concebeu, O Bandido da Luz Vermelha (1968). Os diálogos parecem estranhos, tão inverossímeis, que o bandido que acabara de invadir uma residência questiona sua vítima: “Não irá perguntar quantos eu já matei?”. Ou então aparentemente sensacionalista quando o delegado, patrulhando as ruas, gargalha distribuindo balas em civis dizendo excitadamente depois: Negro parado é suspeito, correndo é culpado”. É por esta consciência antecedente, e bastante lúcida, de que os fatos vividos no momento da cena não são esporádicos, mas, pelo contrário, corriqueiros, que o longa examina o universo da bandidagem.

Ney Matogrosso protagoniza o filme "Luz nas Trevas: A Volta do Bandido da Luz Vermelha"

"Luz nas Trevas: A Volta do Bandido da Luz Vermelha" evoca a qualidade nervosa e exagerada do Cinema Marginal


No caso de Luz nas Trevas, é um exercício duplo de metalinguagem. Enquanto assistimos a algumas cenas, como as já citadas, o filme mostra outras, originais da obra de 1968. Afinal, A Volta do Bandido da Luz Vermelha é a continuação da marginalidade individualista do personagem Jorge Prado, uma das identidades assumidas pelo Luz Vermelha, que na época foi interpretado por Paulo Villaça (1933-1992) e, agora, em sua sequência, pelo cantor Ney Matogrosso. Também é uma representação, ainda que nervosamente exagerada, de uma característica marcante do Cinema Marginal, o retrato da desigualdade social do país, notadamente em São Paulo.

Na direção também houve mudança. Helena Ignez, viúva de Rogério Sganzerla (1946-2004) – realizador do filme de 1968, quando tinha apenas 22 anos – aproveita o roteiro deixado pelo ex-marido e realiza, juntamente com Ícaro Martins e Rodrigo Lima, uma montagem tão organizadamente bagunçada como a que o primeiro filme imprimiu. Completando o projeto familiar, as filhas do casal integram a equipe: Djin Sganzerla e Sinai Sganzerla, respectivamente no elenco e na produção.

Pôster do filme "Luz nas Trevas: A Volta do Bandido da Luz Vermelha"

Apenas com codinome diferente, filho do Bandido da Luz Vermelha quer imitar o pai


No filme atual, enquanto Luz Vermelha paga pelos crimes que cometeu no passado (e também os que não cometeu, para obter regalias na prisão de segurança máxima), quem surge para continuar os assaltos às residências de classe média alta e estuprar suas vítimas é o seu filho. Tal subversão é agora exercida por Ou Tudo ou Nada (André Guerreiro Lopes); o codinome do filho é uma das poucas distinções do personagem agora vivido por Ney Matogrosso.

Quando, enfim, Ou Tudo Ou Nada descobre a existência, e a consciência de quem é seu pai, o bom filho decide o que ser e fazer na vida: se espelhar no pai e viver a mesma vida desregrada e sem juízo. Então, idealiza o pai imitando os traquejos, roupas e acessórios. O capuz vermelho, muito utilizado em faroestes, que na época fez O Bandido da Luz Vermelha ser conhecido como o “faroeste do terceiro mundo”, e a lanterna de mesma cor, entram novamente nas cenas de criminalidade.

Ver A Volta do Bandido da Luz Vermelha atualmente é também, para os mais velhos, retornar ao tempo em que um filme nacional marcou a história do cinema, e não só a brasileira, pois o original, que reafirma a condição de cinema de autor, foi indicado pela Unesco para ser Patrimônio Cultural da Humanidade. Influenciado por Acossado, de Godard, e os estilos de Kubrick e Orson Welles, o longa influenciou pessoas notórias, como o ator e diretor Selton Mello, que o considera um dos melhores filmes de sua vida.

Nota: 8,5 






Ficha Técnica

Luz nas Trevas: A Volta do Bandido da Luz Vermelha – 83 min
Brasil – 2010
Direção: Helena Ignez, Ícaro Martins
Roteiro: Rogério Sganzerla (original), Helena Ignaez (adaptado)
Elenco: Ney Matogrosso, André Guerreiro Lopes, Sandra Coverlone, Bruna Lombardi, Djin Sganzerla, Paulo Goulart, Simone Spoladore, Maria Luísa Mendonça

Estreia: 11 de maio 

O Cinema está na Rede e também no Twitter O Cinema está na Rede e também no Facebook

Postar um comentário

 
Top