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As Neves do Kilimanjaro, novo filme de Robert Guédiguian, trata da temática da luta de classes, do conformismo e de conflitos ideológicos, de forma delicada e sutil. Na trama, ele apresenta um casal da pequena classe média trabalhadora de Marselha, na França, que, após um assalto traumático, passam por uma série de acontecimentos que movem reflexões – dentro e fora da telona. O filme é adaptado, ou mesmo inspirado, pela obra Os Pobres (Les Pauvres Gens), de Victor Hugo. Este poema trata da rotina miserável vivenciada pelos pescadores, passando pela perda de ideais que moviam a sociedade em busca da igualdade, e terminando com a extinção inevitável da alegria. Com os tons da melancolia natural do cotidiano de um casal da meia idade e com todas as características dos filmes franceses, As Neves do Kilimanjaro se faz leve ao tratar de temáticas pesadas.

Cena de As Neves do Kilimanjaro

Os reflexos da crise econômica e da desigualdade social garantem um bom calorzinho morno às "Neves do Kilimanjaro"


A história do filme gira em torno de Michel (Jean-Pierre Darroussin, de Conversas com o Meu Jardineiro) e Marie-Claire (interpretada por Ariane Ascaride), um casal padrão da classe média-baixa francesa. Michel, quando jovem, foi um grande idealista e inicia o filme como um operário com forte senso de justiça, que atua como líder sindical, e vive em um casamento estável e harmonioso com Marie-Claire, que trabalha cuidando de idosos. Eles vivem modestamente, mas são felizes, possuem uma família grande e próspera, e estão apoiados sobretudo em seus valores esquerdistas, defendendo a igualdade. Contudo, com a crise econômica, ele perde seu emprego junto com alguns de seus companheiros de trabalho e se aposenta precocemente. Muitos dos minutos preciosos do longa acabam sendo frutos desse ócio forçado no qual o protagonista é lançado e acaba analisando sua vida dentro do panorama da sociedade.

Michel, em uma comemoração, recebe uma boa quantia em dinheiro dos colegas e mais duas passagens para fazer uma viagem com a esposa. Porém, é assaltado dentro da própria casa por um dos jovens ex-colegas de trabalho que perderam o emprego junto com ele. A questão principal se desenrola aí: o assaltante jovem é um vilão ou a vilã na verdade é a sociedade? Les Neiges du Kilimandjaro mostra então a história do jovem ladrão (Grégoire Leprince-Ringuet, do musical francês Canções de Amor). Ele cuida dos dois irmãos que ainda são crianças e, pobre, após perder o emprego, precisava de alguma forma para garantir que os irmãos não sofressem com isso.

Cartaz de As Neves do Kilimanjaro
O que o filme mostra, a partir da própria ótica de Michel e Marie-Claire, é que, bem ou mal, o dinheiro ganho de presente era apenas um luxo na vida do casal, enquanto que o assaltante nem mesmo tinha uma casa própria e mal consegue alimentar os irmãos. Toda essa confusão familiar ainda é permeada pela ausência da mãe deles (interpretada pela atriz Karole Rocher), que, abandonada pelo pai dos filhos, largou para trás uma vida que nunca quis realmente e, de forma um tanto egoísta (apesar de a personagem tentar se justificar), deixa os filhos à própria sorte.

"Les Neiges du Kilimandjaro" é complexo sem ser complicado, denso sem ser pesado


O espectador então é lançado nessa complexa rede de personagens pobres praticando atos legalmente condenáveis, mas com suas próprias razões sendo o motor que sempre impulsionou os ideais já estabelecidos em suas vidas, e que foram vítimas de um crime. A beleza do filme está em não apontar o vilão ou o mocinho, mas mostrar que, no fundo, cada um tem um dilema existencial que acaba movendo as suas atitudes, sejam elas aceitáveis ou condenáveis pela sociedade – a mesma que cria todo esse ambiente hostil entre as pessoas. A obra aponta os erros e depois deixa que o espectador possa compreender toda a conjuntura que levou até as ações, tratando delas dentro de todo um contexto social complexo. Uma cena que retrata toda a angústia de Michel de forma leve e delicada é em seu diálogo com a esposa, quando após o assalto ele questiona na sacada de sua casa o que ambos pensariam se, ainda jovens, fossem espectadores da própria conjuntura de vida que ambos levavam. Marie-Claire responde ao marido a frase que traduz o dilema de Michel: "Que nós somos pequenos burgueses".

Um ponto alto de As Neves do Kilimanjaro é a interpretação de Jean-Pierre Darroussin, que consegue de forma espontânea passar toda essa complexidade e a ambiguidade da filosofia de um homem marxista que está em pleno século XXI. E na luta por não perder tudo o que ele acredita, toma atitudes que garantem um bom final para o filme. É uma obra bonita, e que consegue passar a ambiguidade do protagonista para a sua própria análise ao ser um filme belo, porém triste, e leve, porém carregado de valores que deixam espaço para muita reflexão ao deixar a sala do cinema.

Nota: 9 





Ficha Técnica


As Neves do Kilimanjaro (Les Neiges du Kilimandjaro) – 90 min
França – 2011
Direção: Robert Guédiguian
Roteiro: Robert Guédiguian, Jean-Louis Milesi – Baseado em poema de Victor Hugo
Elenco: Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin, Karole Rocher, Gérard Meylan, Grégoire Leprince-Ringuet , Marilyne Canto

Estreia: 6 de abril 

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