2
Filme rodado com baixo orçamento, reaproveitando figurinos e cenários de outras produções, rodado em 17 dias e executado entre amigos. Esses são os ingredientes que o longa Reis e Ratos utiliza para contar um pouco da história do Brasil de forma bem-humorada e inteligente, além de constituir um exemplo de que nem sempre é preciso uma história super diferente para resultar num filme interessante; às vezes basta inovar na maneira de contar a história, mesmo que seja uma já bem conhecida. 

O filme Reis e Ratos apresenta o Brasil recontado com diálogos tarantinescos


O Brasil de 1963 é marcado por um clima conspiratório no qual todos os personagens da trama estão imersos. Amélia Castanho (Rafaela Mandelli, de Meu Nome Não é Johnny) e Troy Somerset (Selton Mello, de O Palhaço) são uma espécie de representação do ponto de vista feminino e masculino da trama com um objetivo em comum: ambos não querem saber de conspirações, golpe etc; só querem a tranquilidade de poder trabalhar de pijamas (Troy) e ser amada de verdade por alguém (Amélia).

Mas, com a eminência do golpe de 64, o agente da CIA Troy começa a rever sua fidelidade aos EUA, tramando para tentar conter o golpe militar, em vez de colaborar com ele. Casado com a brasileira Leonor (Paula Burlamaqui), o personagem de Selton – com seus olhos propositalmente apertados num tom de canastrão – discorre sobre seu apego ao Brasil em alguns de seus impagáveis diálogos com o major Esdras (Otávio Müller, de Cabeça a Prêmio). Aliás, os divertidos diálogos entre os personagens de Selton Mello e Otávio Müller, com um toque tarantinesco, nos fazem aguardar ansiosamente o retorno deles todas as vezes em que a história se foca nos outros personagens. 

As figuras femininas não são o ponto forte da trama, culminando mesmo com uma história protagonizada por figuras masculinas que, na maioria, estão mais para “ratos” que para “reis”. Na categoria “ratos” fica em destaque Roni Rato (Rodrigo Santoro, de Meu País, impressionante!), encarnando o espírito repulsivo de um roedor de rua sempre pelos cantos, aguardando uma oportunidade de ser dar bem. Na categoria “reis”, Cauã Reymond (de Estamos Juntos) vive Hervê Gianini, um locutor de rádio médium que incorpora um espião russo, salvando as “mocinhas” da trama em perigo. 

Mauro Lima insere em Reis e Ratos uma narrativa inteligente e cínica


O diretor Mauro Lima (de Meu nome não é Johnny) parece buscar inspiração em características de filmes non sense e conspiratórios, como Queime Depois de Ler, dos irmãos Coen. A trilha sonora dá um ar cômico absurdo ao filme, ficando a cargo da canção-tema, composta por Caetano Veloso especialmente para o longa, a função de cantar de maneira um pouco melancólica que todos têm algo de rei e algo de rato. Mas, em alguns momentos, os homens são mais ratos.

Todos esses aspectos desenham com tons de preto e branco e cores amareladas a história recente do Brasil, de forma que a influência norte-americana no golpe militar, a guerra fria e todas as consequências sobre as nossas vidas até hoje, parecem tão estúpidas e desumanas que nem parecem ser verdade. Ou muitos gostariam que não tivesse sido mesmo.

Por: Mônica Lobo 
Nota: 8.5




Ficha Técnica

Reis e Ratos – 110 min 
Brasil – 2012 
Direção e Roteiro: Mauro Lima 
Elenco: Selton Mello, Cauã Reymond, Rafaela Mandelli, Rodrigo Santoro, Seu Jorge, Otávio Müller, Daniel Alvim, Edmilson Barros, Paula Burlamaqui 

Estreia: 17 de fevereiro


O Cinema está na Rede e também no Twitter O Cinema está na Rede e também no Facebook

Postar um comentário

  1. É bom finalmente ver alguém falando bem desse filme, a grande maioria das críticas que eu li, colocavam o filme abaixo de lixo. E poxa, eu gostei, achei muito criativo e me diverti, estava achando que mais ninguém ( além de mim e um amigo) gostou do filme. Adorei a sua crítica e concordo com você em vários pontos. Reis e ratos é um filme para poucos pelo o que eu pude constar, é preciso entender de onde vem as suas tiradas e entrar na brincadeira, que ele se propoe, é uma sátira ( inteligente ), o olhar deve ser diferente, as vozes e atuações propositamente exageradas, a trama pode parecer confusa e mal explicada, quase sem nexo, mas essas ´são as jogadas do filme que brinca com si mesmo, seus personagens clichês, uma opereta mal escrita como diz em certa parte. O problema é que muitos não conseguiram ver isso, pela falta de entendimento ou conhecimento, ou por não conseguir entrar na proposta, muitos analisam tudo seriamente, sendo o que filme não se propoe a isso. Eu gostei, e vê-lo no cinema foi como um excelente surpresa, constatar que o cinema brasileiro pode fazer algo tão criativo e brincar com si mesmo.

    ResponderExcluir
  2. Pois é, Cintia. Ainda existe essa pré-disposição de criticar negativamente o cinema nacional. O diretor e atores fizeram um exercício cinematográfico, com homenagens, caricaturas, críticas ácidas, deboche e tudo o mais que se tem direito para se falar de um período difícil do país. Ao invés de optarem por um drama político ou um filme conspiratório clichê, eles preferiram usar a graça e o exagero para ver se aquilo tudo fica um pouco menos doloroso, mas não menos importante. Achei a iniciativa super válida e bem-sucedida dadas as condições de produção. Palmas para a iniciativa! E que venham outros!

    ResponderExcluir

 
Top