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Um filme que já sai do forno com a certeza de ser um clássico do suspense. De temática familiar, universo no qual costumam surgir as maiores tragédias da humanidade (Sófocles, Shakespeare, Dostoiévski), Precisamos Falar Sobre o Kevin mostra que quando uma relação naturalmente amorosa, como a de mãe e filho, não pode contar com esse sentimento plenamente, o espaço que sobra pode ser preenchido com uma tensão que oscila entre o desejo de ser amado e o ódio.

Amor involuntário ou por obrigação social



Eva (Tilda Swinton, de Um Sonho de Amor) era uma mulher livre, que aproveitava as sensações da vida, uma verdadeira cidadã do mundo, mas agora é uma mulher instável, com medo, e que está recomeçando do zero. Essas são as primeiras coisas que descobrimos através de uma narrativa linear, mas que intercala dois momentos distintos na vida da personagem. O filme é organizado em um "antes e depois" de algo que logo descobrimos do que se trata: Kevin.

Filho de uma gravidez indesejada, Kevin (Ezra Miller) transforma de uma hora para outra toda a vida de Eva. Fazendo o que achava ser o certo, mas não o que desejava, ela se casa com Franklin (John C. Reilly, de Cyrus), e torna-se uma dona de casa para cuidar do bebê, abrindo mão de sua vida de liberdade e viagens ao redor do mundo. Mas deixando para depois o que acontece a partir de então, no presente Eva mora sozinha em uma casa ruim, está tentando um emprego igualmente ruim, e gera a antipatia de seus vizinhos sem nenhum motivo aparente.

Aos poucos, os dois tempos distintos da narrativa vão revelando o que aconteceu a partir das dificuldades de Eva em amar seu primeiro filho, e as consequências ou não disso na personalidade de Kevin. Aí na verdade está o ponto chave do filme: Kevin é fruto das atitudes da mãe, ou sua personalidade já estava definida de nascença?

Precisamos Falar Sobre o Kevin tem a melhor interpretação da carreira de Tilda Swinton



É evidente que a atriz de expressão sofrida é uma das grandes responsáveis por deixar a plateia suando frio durante o longa. Quanto à diretora escocesa Lynne Ramsay, o clima de tensão e desconforto que ela consegue construir é primoroso. Sem contar a escolha de um elenco de atores que parecem ter nascido para seus papéis que somam atuações igualmente ótimas, especialmente Ezra Miller como Kevin. Esse é com certeza o grande destaque da carreira da diretora até agora.

Um filme sobre complexo de Édipo que é capaz de deixar qualquer um com os nervos à flor da pele. Precisamos Falar Sobre o Kevin deverá ser muito lembrado e citado no futuro, seja em aulas de psicologia, ou em discussões sobre os melhores thrillers da história do cinema.

Por: Lucas Siqueira Cesar
Nota: 10



Ficha técnica


Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin) – 112 min
EUA, Reino Unido – 2011
Direção: Lynne Ramsay 
Roteiro: Lynne Ramsay, Rory Kinnear – Baseado no romance de Lionel Shriver
Elenco: Tilda Swinton, Ezra Miller, John C. Reilly, Jasper Newell, Ashley Gerasimovich 

Estreia: 27 de janeiro

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  1. Gostei da sua análise! Realmente ficou no ar essa dúvida sobre o comportamento do garoto. A sensação que tenho é a de que Kevin é o exemplo padrão de sociopata, já desprovido de sentimentos nobres desde o nascimento. Mas não dá pra afirmar isso categoricamente sobre o rapaz que vemos no filme, pois outras questões sobre isso são expostas e deixadas no ar.

    A atuação da Tilda Swinton está maravilhosa e considerei de uma injustiça tremenda o fato de ela não ter sido indicada ao Oscar.

    Abraço!

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  2. Esse filme é baseado em um livro que vale muito a pena ler! E eu só descobri que o livro virou filme um dia desses quando vi numa livrariauma nova edição do lviro em que a capa é uma cena do filme.

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  3. Estrutura perversa, pela omissão dos pais. Mãe o rejeitou desde a gestação, e o casal não soube impor limites, dar contornos, contenção. Sabe da lei e a desobedece como desafio aos que deveriam amá-lo (impondo limites), mas não o fazem. A sociopatia dele é um viés da perversão. Ele poderia ter uma estrutura perversa e não colocar suas maldades em prática, como há muito por aí. São profissionais que aplicam suas perversidades no cotidiano e são vistos apenas como maus, antissociais, porque não chegam a matar fisicamente, mas matam moralmente, porque não têm ética (sabem dela, mas a descumprem. O Judiciário está cheio desse tipo de gente).

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