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O gênero documentário vive um momento animador na produção cinematográfica brasileira. Filmes que abordam os mais diversos temas oferecem uma pluralidade de estilos enriquecedora e bastante interessante, devido à coragem com que assuntos “engessados”, como a política, são apresentados ao público. E Porta a Porta pode ser considerado um dos estudos mais importantes dos últimos anos que seguem esta linha, principalmente pela atualidade. Enquanto outras obras relevantes, como Utopia e Barbárie, Diário de uma Busca e Marighella, voltam ao passado para tentar dar uma nova luz ao presente, o longa de Marcelo Brennand é centrado na realidade atual.

Como o subtítulo bem diz, o cineasta de 28 anos investigou o cenário político de Gravatá, cidade do interior de Pernambuco, em dois tempos: durante e após as campanhas eleitorais para vereador e prefeito, em 2008. A escolha por apresentar os bastidores deste evento não poderia ser mais acertada. A partir de um cenário restrito a uma população de 80 mil habitantes, pode-se captar a essência de um microcosmo, capaz de ser ampliada e comparada à política nacional como um todo, resguardadas apenas as devidas proporções midiáticas, regionalismos característicos e quantidade de pessoas envolvidas.

À medida em que a narração em primeira pessoa avança, Brennand muda o foco de seu estudo. Ele parece dialogar com o espectador, explicando suas motivações e dúvidas. Durante três meses sua equipe de gravação acompanhou a movimentação da disputa política em Gravatá e voltou após um ano, para reencontrar personalidades envolvidas no processo. O doc começa com o candidato a vereador Fernando Resende como “personagem principal”, mas passeia pelas motivações de militantes, suas famílias e de outros candidatos. Brennand investiga profundamente o que leva uma pessoa comum a querer ser popular e, consequentemente, eleita para algum cargo político.

A narrativa é acertadamente não-linear, o que gera um maior envolvimento emocional com os fatos relatados. Brennand mostra como o sistema eleitoral é baseado em um jogo de interesses e em discursos praticamente idênticos, não importa se são da oposição ou da situação. Da mesma forma que a população mais necessitada precisa da política a cada dois anos para ampliar sua renda – em Gravatá, uma pessoa que ganha cerca de R$ 100 por mês em um subemprego passa a ganhar R$ 70 por semana trabalhando como cabo eleitoral durante campanhas –, os candidatos almejam uma mudança de vida, um emprego com salário muito maior do que qualquer trabalho “comum” que eles poderiam conseguir.

Ou seja, o engajamento político, a luta pela ideologia e a honestidade são qualidades presentes em uma mínima porcentagem envolvida em campanhas eleitorais, para não dizer praticamente nula. A busca pela conquista de votos é baseada naquele famoso “me engana que eu gosto” e os cabos eleitorais seguem os candidatos à prefeitura que prometem um dos cargos comissionados a que eles têm direito. Não se apóia mais por verdadeira militância, e sim por necessidade de ganhar o pão de cada dia, de sustentar famílias. Em um país onde a corrupção parece estar no DNA dos que deveriam ser representantes do povo, um filme como Porta a Porta: A Política em Dois Tempos chega em bom momento. E a ansiedade por dias melhores continua, não só nos moradores de Gravatá, mas nos brasileiros que têm esperança. Será que a política nacional tem jeito?

Por: Mattheus Rocha



Porta a Porta: A Política em Dois Tempos – 80 min
Brasil – 2011 
Direção: Marcelo Brennand 
Roteiro: Marcelo Brennand, Cario Cavechini 

Estreia: 16 de dezembro


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