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Betrand Bonello já chocou o público e crítica com seus filmes anteriores, O Pornógrafo e Tirésias, este último a respeito de um transexual brasileiro. Não é à toa que L’Apollonide: Os Amores da Casa de Tolerância transborda irreverência. Concorrente à Palma de Ouro em Cannes, o longa é um extraordinário retrato dos prostíbulos franceses do final do século XIX. Trata-se, especificamente, de um casarão fantástico onde vivem doze garotas de programa multifacetadas, com seus longos e detalhados vestidos de época (direção de arte cuidadosa e muito competente) e seus clientes também de múltiplas faces, em grande parte a burguesia pançuda que consumia seus serviços.

personagens incríveis, como a mulher que sempre sorri, uma prostituta com cicatrizes no rosto causadas por um lunático que a esfaqueou no passado, deixando-a com um eterno sorriso na face. Há belas mulheres, há outras menos bonitas, mais geniosas, e tudo funciona como uma família. É satisfatório notar a visão feminina do tema: o conceito que elas têm dos fregueses homens. Pois ao longo da trajetória literária e pictórica do assunto, temos visto o oposto: a visão de escritores, pintores e afins acerca destas mulheres e destes ambientes. Toulouse-Lautrec, o pintor, e Guy de Maupassant, escritor, são algumas referências e inspirações de Bonello aqui.

Mostrando a decadência, elegância e peculiaridade deste quadro, L’apollonide ao mesmo tempo acaba fazendo crítica. A questão da permissão ou não da prática da “profissão mais antiga da história” vem sendo discutida há tempos na França, e gerando muita controvérsia. Apesar do diretor não querer exatamente expor sua opinião diretamente, e sim botar em foco o cenário, as incógnitas e questões pertinentes, vê-se claramente uma espécie de simpatia por estas que são por vezes consideradas párias da sociedade, ao lado de marginais, bandidos, viciados e outras minorias. Existem vários estudos acerca também do fato de que estes indivíduos foram, e são, em muitos casos, considerados como tendo menor intelecto – sim, são julgamentos feitos pela justiça, pela polícia e outras entidades ao longo dos últimos séculos.

Como diz um personagem: “Eu amo as putas!”. Caricaturas à parte, isto funciona quase como o cartaz, a mensagem sintetizada e bonachona da película, que é de muito bom gosto e de muita atualidade. Mais uma vez, destaque para figurinos, e setor da arte em geral. Muitos filmes, apesar do grande investimento de produção, não conseguem dar o tom certo de realidade e naturalidade ao visual das personagens de época, particularmente estes de século XVIII ou XIX. Em L’Apollonide o mérito está justamente aí: imagem e conteúdo entrelaçados, vistos no mesmo nível de importância.

Por: Will Pereira


L’Apollonide: Os Amores da Casa de Tolerância (L'Apollonide: Souvenirs de la Maison Close) – 122 min 
França – 2011S
Direção e Roteiro: Bertrand Bonello 
Elenco: Hafsia Harzi, Noémie Lvovsky, Jasmine Trinca 

Estreia: 06 de janeiro

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