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A filmografia do cineasta Gus Van Sant é preenchida por diferentes tipos de obras. Há longas autorais com caráter intimista, como Elephant (2003) e Paranoid Park (2007), e outros de narrativa tradicional, com méritos inquestionáveis: Gênio Indomável (1997), e Milk: A Voz da Igualdade (2008), por exemplo. Inquietos trafega por ambas as tendências. Existe o tom contemplativo no olhar dos personagens, cujo silêncio diz mais do que palavras, mas também desdobramentos tradicionais que, por decisões questionáveis, neste caso específico, declinam as pretensões da obra. Inquietos é um filme bonito, mas poderia ter ido além.

Enoch Brae (Henry Hopper) é um jovem que, por causa de um trauma do passado, tem um estranho hábito: frequentar velórios de desconhecidos. Em um destes, conhece e se apaixona por Annabel Cotton (Mia Wasikowska, de Alice no País das Maravilhas), uma garota com câncer terminal, mas com enorme prazer em viver os dias que lhe restam. Idiossincráticos – com ideias curiosas sobre a morte – ambos decidem viver os últimos momentos da melhor forma possível.

Van Sant é hábil em pôr a câmera no personagem e deixar que a expressão no olhar transmita as inquietações existenciais – Elephant é um exemplo nesse sentido: um filme ‘silencioso’ e lento, mas com ritmo adequado. Apesar de mais ágil, Inquietos tem um toque desta ‘lentidão correta’; Brae e Cotton não precisam de tantas palavras para exporem o que sentem. E é na primeira metade do filme que há a evidência ponderada de ‘nuances’ de cada um deles. É válido ressaltar que as interpretações corretas dos protagonistas também viabilizam esta intenção.

No decorrer da narrativa, porém, o excesso de falas em off, cujo objetivo era tornar claro ao espectador o que rondava no imaginário de cada um deles, soa redundante. Além disso, a bem construída atmosfera melancólica – ressaltada pela boa fotografia –, e o interessante tom filosófico sobre as questões que envolvem o ‘além vida’, entram em conflito com o lugar-comum, como a pouco inspirada trama que serve para justificar o trauma de Brae , e verbalizações piegas que remetem o filme ao fraco Um Amor para Recordar. Mas é uma leve lembrança, pois Inquietos, apesar dos tropeços, possui o seu valor, e é indubitavelmente superior.

A morte pode ser a única certeza que temos, mas jamais aceitamos a ideia de perder um ente querido. Annabel, quando comenta sobre o período que lhe falta de vida, questiona com inspirado senso de humor: “Quem será que irei assombrar?”. O espectador, certamente não irá acompanhar os desdobramentos do filme com o sorriso no rosto. Inquietos é uma obra triste e bem realizada, mas infelizmente certos equívocos atrapalham o que poderia ser um filme ainda melhor. 



Inquietos (Restless) – 91 min 
EUA – 2011
Direção: Gus Van Sant 
Roteiro: Jason Lew 
Elenco: Henry Hopper, Mia Wasikowska, Ryo Kase, Schuyler Fisk, Jane Adams 

Estreia: 25 de novembro

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