0

Seguindo a sequência de 5 filmes sobre 5 ícones da arte e cultura brasileiras, baseados em exposições homônimas sobre eles – que a casa promoveu anteriormente –, o projeto Iconoclássicos, do Itaú Cultural, traz agora o retrato de José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, pelas mãos e olhares de Tadeu Jungle e Elaine Cesar. Jungle já acompanha os espetáculos do Teatro Oficina, encabeçados por , desde seus tempos de ECA-USP. Vem destes tempos também a introdução de Elaine Cesar ao registro audiovisual de tais peças, as quais está habituada a dirigir. Ambos artistas multimídia, oscilando entre publicidade, teatro, vídeo arte e cinema, são ótimas escolhas para retratar este artista importantíssimo da dramaturgia brasileira.

Zé Celso Martinez tem uma trajetória longa e variada nos palcos e na luta em prol do teatro, que remete a um movimento maior, político-cultural, que germinou nos anos 1960, do qual fizeram parte o Cinema Novo de Glauber Rocha (muito admirado pelo dramaturgo), o Tropicalismo musical de Caetano e Gil, entre tantos outros representantes. Mas este filme não visa este lado careta de datas, biografia linear e afins. Há, sim, material rico de arquivo: o artista nos anos 60, 70, 80 ou 90 em momentos seminais do nosso teatro, encenações antológicas de Os Sertões, Dionisíacas, entre outras, ou discussões, debates acalorados entre atores e produtores do Teatro Oficina, protestos e lutas pelo seu espaço, e tudo mais.

Porém, a abordagem do documentário é “solta”, é livre como a própria arte do protagonista. Não estabelece limites ou referências de linearidade, de tempo: começa dum ponto em que poderia terminar, e segue numa montagem espontânea, improvisada, na qual às vezes inicia um tema e, na mesma cena, já estamos falando de outro assunto, enquanto ele dialoga e encena com a câmera, em praias brasileiras ou em locações extraordinárias na Grécia, em meio a ruínas antológicas, como quando encarna o Minotauro em meio a uma arena grega.

Ou seja: a forma tomou o cuidado de ser coerente para com o retratado, podendo o filme ser visto de trás para frente. Em vez de soar bagunçado e incoerente, vê-se uma lógica redonda ao considerarmos o discurso e os pensamentos dele acerca da arte, da poesia, da vida e de suas escolhas: o artista é conhecido por sempre ter feito somente o que queria, ainda que o preço desta escolha tenha sido alto.

E, ao contrário do que poderíamos imaginar, Zé Celso não interferiu quase nada no processo de filmagem, mas deixou-se levar pela direção, pela lente, pelo cinema que ele respeita e parece reconhecer como totalmente complementar e necessário ao teatro nos dias de hoje – e vice-versa. Porque a luta daqueles que insistiram e teimaram com esta coisa incrível e difícil chamada cinema, ao longo das últimas décadas, não é lá muito diferente da luta pelos palcos. E há uma graça interessante quando as duas linguagens dão as mãos.

A personalidade de Zé Celso transgride, choca e intriga a muitos, e ele parece não ter mudado muito em termos de lucidez, ou de atitude, em relação a vinte anos atrás. Quando o assistimos no Roda Viva, com mais cabelos, sendo atacado e desafiado por alguns jornalistas a defender seus ideais e seus projetos, vemos a mesma convicção e energia presentes nos depoimentos atuais – embora hoje sua figura pareça ter se tornado mais “bacante”, mais desencanada ou até jovial, não por ter desistido da luta, “afrouxado” ou coisa parecida, após tanta “porrada na cabeça”, mas justamente por ter cada vez mais convicção do que fez, de sua luta e seus ideais. 

Por: Will Pereira


Evoé! Retrato de um Antropófago – 104 min
Brasil – 2011
Direção: Tadeu Jungle, Elaine Cesar

Estreia: 25 de novembro (São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador)

Compartilhe este conteúdo |

O Cinema está na Rede e também no Twitter O Cinema está na Rede e também no Facebook

Postar um comentário

 
Top