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Eu Eu Eu, José Lewgoy não é um documentário biográfico, apesar de reunir elementos deste gênero, mas sim um mosaico de lembranças de um dos atores mais importantes do cinema nacional. A homenagem de seu amigo Cláudio Khans oferece ao espectador uma rica pesquisa em torno da obra e da vida pessoal desse gaúcho de Veranópolis. De temperamento difícil e talento inquestionável, pode-se dizer que Lewgoy teve uma vida de dedicação à sétima arte. E a vista de seu apartamento no Rio de Janeiro, bairro da Lagoa, em um dia nublado, dá o tom melancólico do doc, que investe em relembrar, com saudosismo, de José Lewgoy, que deixou os palcos da vida terrena em 2003, aos 82 anos e ainda filmando! 

Entrevistas de arquivo com o próprio Lewgoy e com atores (entre eles Tônia Carrero, Walmor Chagas e Glória Pires), cineastas (Anselmo Duarte, Guilherme Almeida Prado e Werner Herzog), familiares, amigos e vizinhos ilustram passagens importantes da vida de Lewgoy. Mesmo utilizando uma narrativa predominantemente linear, em momentos-chave do doc, Khans consegue unir a informação à emoção e recorre a lembranças mais profundas, que envolvem passagens mais pessoais, algumas até da infância e da juventude de Lewgoy, em parte desconhecidas do grande público. 

Por se destacar no Teatro de Estudante do Rio Grande do Sul, Lewgoy conseguiu uma bolsa de estudos na Escola Dramática da Universidade de Yale e passou uma temporada nos EUA. Decidiu voltar ao Brasil e se arrependeu. A decepção por ter desistido da carreira de ator internacional o perseguiu durante algum tempo. Mas, mesmo após inúmeras dificuldades, não demorou muito para ser reconhecido no cinema nacional. Nos filmes produzidos pela Atlântida, Lewgoy contracenava com Oscarito e Grande Otelo, considerados mestres da improvisação.

Convidado para um evento na França, decidiu ampliar sua estadia e ficou por lá 10 anos. No começo, chegou a desenhar em praça pública para sobreviver, já que foi para Paris com apenas US$ 500 no bolso. Participou do cinema francês anterior à Nouvelle Vague e voltou ao Brasil na época do Cinema Novo, sem mercado de trabalho, mas foi chamado por Glauber Rocha para atuar em Terra em Transe, o que deu um novo rumo à sua carreira. E é isso que marca a vida profissional de Lewgoy: as mudanças de rumo. Segundo Luis Fernando Verissimo, Lewgoy é o ator brasileiro mais internacional de todos os tempos.

Em uma passagem interessante, Lewgoy fala da dificuldade em se fazer comédia, seu gênero preferido, pois não basta apenas fazer graça, tem que ter timing. Sua entrada no universo da TV, no início dos anos 1970, quando as novelas da Globo estavam se modernizando, são contextualizadas com depoimentos de Glória Pires e do autor Gilberto Braga. Confusões, sucesso e decepções marcam sua passagem pela emissora. Também chamará a atenção dos cinéfilos a entrevista com Werner Herzog, com quem Lewgoy trabalhou em Fitzcarraldo (1982). Eu Eu Eu José Lewgoy é uma obra imperdível não só para quem gosta do trabalho de Lewgoy, mas para relembrar episódios importantes da história do cinema. 



Eu Eu Eu José Lewgoy - 94 min
Brasil - 2009
Direção: Cláudio Khans

Estreia: 25 de novembro (São Paulo)

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