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Em 11 de setembro de 1973, o Chile foi vitimado por um golpe de estado que depôs o presidente Salvador Allende e colocou no poder o general Augusto Pinochet. Milhares de pessoas foram presas, torturadas e assassinadas, incluindo o alto escalão do governo. A história dos ministros, secretários e outras autoridades é contada no filme Dawson Ilha 10, de Miguel Littin.

Baseado no livro de mesmo nome, de autoria de Sergio Bitar, então ministro da Mineração, o filme conta a história do campo de concentração construído pela ditadura na Ilha Dawson, na região da Terra do Fogo, extremo sul do país, uma área fria e desolada. Durante pouco mais de um ano, homens antes poderosos foram tratados como números (daí o título) e forçados a trabalhar, sem ter certeza se sobreviveriam aos maus-tratos e ao tempo inclemente.

Diversas estratégias de sobrevivência são desenvolvidas: o registro pictórico do local, feito por Miguel Lawner (representado pelo brasileiro Bertrand Duarte), as próprias anotações de Bittar (Benjamin Vicuña) ou ainda as cantorias. Eles até organizam uma festa de Natal, com apresentações de música e teatro. Outra forma de amenizar o sofrimento era o próprio relacionamento com alguns militares que, às escondidas dos comandantes, ajudavam os confinados com ração extra de comida e medicamentos.

Essa relação, aliás, dá a tônica do filme e revela a posição do diretor, que critica o regime e toda a loucura que ele implantou, mas registra a solidariedade e humanidade dos opressores que, no final das contas, se enredam em uma situação da qual eles próprios não sabem como sair, especialmente aqueles de baixa patente, como o soldado Soto ou o sargento Figueroa.

Filmado na própria ilha Dawson, a produção traz um elenco afinado, que consegue transmitir através do olhar e dos pequenos gestos a perplexidade e a sensação de impotência que aquela situação lhes impôs. Além disso, foi feito um excelente trabalho de reconstituição de época, em que detalhes dão um sabor especial. A opção por uma luz acizentada, além de reproduzir o ambiente, reflete o espírito reinante no campo, de homens tratados como prisioneiros de guerra em seu próprio país.

Trechos de filmes em preto e branco, de época, retratando o ataque ao Palácio La Moneda, em Santiago, no qual Allende foi morto, também são mostrados, embora não sejam estritamente necessários à narrativa. De qualquer modo, emprestam um ar documental ao longa. Também são inseridos discursos e textos de e sobre o presidente deposto. Quase quarenta anos após o golpe e já tendo vivido mais de vinte em regime democrático, o Chile ainda precisa acertar suas contas com o passado. O filme de Littin acrescenta mais uma valiosa página nessa difícil história. 


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Dawson Ilha 10 (Dawson Isla 10) – 117 min
Chile, Brasil, Venezuela – 2009
Direção e Roteiro: Miguel Littin
Elenco: Benjamin Vicuña, Bertrand Duarte, Paul Krogh, Cristian De La Fuente, Sergio Hernández, Luiz Dubbo, Caco Monteiro, Horacio Videla, Matias Veja, Andres Skoknik, Alejandro Goic

Estreia: 25 de setembro 

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