1

A Chave de Sarah, do diretor Gilles Paquet-Brennerr, é o tipo de filme que surpreende e emociona o espectador pela força das imagens, concebidas em planos e movimentos de câmera inspirados. Os recursos da linguagem cinematográfica – no campo da representação visual – atentam com espetacular competência em transmitir a dor, a aflição, o medo e os demais sentimentos desesperadores dos personagens do longa. Infelizmente, pecadilhos do roteiro, como o tom ‘novelesco’ de subtramas, e certo apelo a clichês sentimentalóides atrapalham o ritmo da narrativa em alguns momentos. Apesar dos “poréns”, a obra resulta em um retrato interessante sobre as consequências da brutalidade desumana do nazismo, e do trauma em decorrência de uma atitude, na vida de uma garota.

Em 1942, quando a França foi ocupada pelos nazistas, vários judeus foram arrancados à força de suas casas e colocados em campos de concentração, onde estavam sujeitos à violência física e à morte iminente. Enquanto a pequena Sarah (Mélusine Mayance, de Ricky, em excelente atuação) é levada com os pais por militares do governo francês, que apoiavam o nazismo, para o campo, a garota esconde o irmão mais novo em um armário, e guarda com ela a chave. Paralelamente, o filme mostra, já em 2009, a busca da jornalista Julia Jarmond (Kristin Scott Thomas, de O Garoto de Liverpool) por Sarah, mais de 60 anos depois.

E é na apresentação dos eventos ocorridos na década de 1940 que o longa concentra maior força. É difícil não se comover com o amor de Sarah pelo irmão – devoção mostrada na primeira sequência, quando ambos, aos sorrisos leves e sinceros, se divertem no ‘raro’ (talvez o único) momento de felicidade da garota na narrativa –, e é impossível não torcer para que ela consiga driblar os percalços e tirar o irmão de dentro do armário. O roteiro, de forma correta, traz a constante preocupação da garota com a chave. Na iminência de perdê-la – e deixar de salvar o irmão – ela a encontra novamente, o que traz de volta a esperança de tirar o garoto de lá. A tensão no cuidado com o objeto é estabelecida de forma pontual em várias cenas.

As sequências do campo de concentração são, igualmente, orquestradas de forma hábil e impactante; como, por exemplo, no trecho em que Sarah é separada da mãe em meio a várias mulheres e crianças, e o desespero norteia a situação, na qual jatos de água são usados para facilitar a separação entre mães e crias. O tom desesperador dessas ações é garantido graças ao excepcional trabalho do elenco principal e de apoio, da excelente movimentação de câmera e dos cortes pontuais das cenas. A sequência em que Sarah arrasta-se no chão, no ímpeto de buscar a chave, e um oficial pisa na mão dela, é outro momento sublime da direção. Belo encadeamento narrativo.

Por outro lado, no momento em que aborda  a jornada da Julia por Sarah, o filme deixa de lado a inspiração, ao apresentar uma subtrama banal e desnecessária do conflito da jornalista com o marido, que (de forma pouco crível) não aceita um filho que está por vir e pede para ela abortar. É certo que a profissão de jornalista é estressante e que conflitos entre pessoas de diferentes ambientes são inevitáveis, mas o filme não acerta o tom e, de certa forma, perde o foco ao ilustrar as crises. A Chave de Sarah, em contrapartida, é uma obra interessante, cujas imagens fortes dão a tônica e dimensionam a dor existencial de Sarah. Apesar dos pequenos problemas do roteiro, e do pieguismo conclusivo, é uma obra que emociona. 



A Chave de Sarah (Elle s'appelait Sarah) – 111 min 
França – 2010
Direção: Gilles Paquet-Brenner 
Roteiro: Gilles Paquet-Brenner, Serge Joncour, Tatiana De Rosnay 
Elenco: Kristin Scott Thomas, Mélusine Mayance, Niels Arestrup, Frédéric Pierrot, Aidan Quinn, James Gerard 

Estreia: 18 de novembro

Compartilhe este conteúdo |

O Cinema está na Rede e também no Twitter O Cinema está na Rede e também no Facebook

Postar um comentário

  1. Esse filme é extremamente triste. Se vc gosta de um finais felizes, esse filme, DEFINITIVAMENTE, não é pra vc.

    ResponderExcluir

 
Top