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Um dos melhores filmes de todos os tempos, e não contando apenas os brasileiros. Assim pode-se definir Sudoeste, longa de estreia de Eduardo Nunes, que também assina o roteiro, em parceria com Guilherme Sarmiento. Filmado em um deslumbrante preto e branco, o experimentalismo impresso à obra foge do convencional e desafia o espectador a imergir no universo que cerca sua densa história. Selecionado para a Première Brasil do Festival do Rio 2011, o longa causou alvoroço ao encerrar o Festival de Gramado e estreia em circuito comercial neste sexta-feira (19/10). No Rio de Janeiro, o filme será exibido no Espaço Sesc Rio (Rua Voluntários da Pátria, Botafogo).

Com apoio de um elenco afinado, que brinda o espectador com atuações primorosas, incluindo Simone Spoladore (de Natimorto), Dira Paes (de Estamos Juntos) e Léa Garcia, pode-se visualizar elementos bergmanianos no estilo de Nunes, com enquadramentos estilosos e ousadia narrativa, aliados ao surrealismo de Buñuel e somados ao regionalismo brasileiro de um Lavoura Arcaica. O resultado é uma obra-prima. Sudoeste é ambientado em uma vila isolada do litoral brasileiro e dotado de uma forte carga de misticismo, presente na saga de Clarice (quando adulta interpretada por Spoladore), que contempla sua vida em apenas 24 horas. 

A Bruxa, como é conhecida entre os habitantes da vila a personagem de Léa Garcia, embora apareça apenas no início, é peça de importância fundamental na compreensão deste jogo de quebra-cabeças que é o roteiro de Sudoeste. Quando parece que se encaixaram as peças, novos fatos vêm à tona. Os personagens são enigmáticos e os diálogos são poucos – só o essencial é dito. As falas são substituídas pela sutileza das expressões corporais, pelas trocas de olhares e até pelo ato de encarar as palmas das mãos, numa luta interna de Clarice para reconhecer a si mesma e enxergar sua alma, além da concretude da matéria. 

Sua construção metafísica, em contraposição à vida arcaica, é um convite ao mergulho em reflexões acerca da morte e do nascimento, que, na realidade, tanto um quanto o outro, embora aparentemente opostos, são ritos de passagem rumo ao desconhecido. Já a percepção do tempo como algo cíclico, e não uma linha reta, com início, meio e fim, se faz presente na forma como Clarice encara, em descompasso com as pessoas ao seu redor, as vicissitudes inerentes ao que chamamos de destino. 

João (o menino Victor Navega Motta demonstrando a confiança e naturalidade que lhe faltaram em sua estreia nas telonas, com Não se Pode Viver sem Amor) é a personificação da busca de Clarice pela criança interior (inocência) e a purificação (metaforicamente apresentada no ato de beber água constantemente), que denotam a coragem de explorar este mundo concernente à alma, um universo tão particular e tão necessário às descobertas exteriores a si. A trilha sonora original de Yuri Villar, Cristiano de Abreu e Tiago Azevedo colore as passagens lúdicas referentes às curiosidades infantis e ao poder da imaginação. 

Já a sensação de opressão é amplificada por detalhes técnicos que contribuem para contextualizar o sentimento de solidão dos personagens. A brilhante fotografia de Mauro Pinheiro Jr. (de VIPs), granulada e com um ar vintage, trabalha um fascinante jogo de luzes e sombras, que, em conjunto com a irretocável direção de arte e a competente edição de som (captado pelos irmãos Leandro e Evandro Lima), cria uma ambientação rústica e soturna. São quase personagens de carne e osso o som do ranger de portas, o barulho incessante de um ventilador antigo, o chirriar dos grilos, o amedrontador uivar do vento... Mas você pode fechar os olhos, ouvir o barulho da chuva, sentir o cheiro da terra molhada e, enfim, se libertar das correntes imaginárias que o ser humano insiste em carregar. 


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Sudoeste – 128 min
Brasil – 2011
Direção: Eduardo Nunes 
Roteiro: Eduardo Nunes, Guilherme Sarmiento 
Elenco: Simone Spoladore, Julio Adrião, Raquel Bonfante, Mariana Lima, Dira Paes, Victor Navega Motta, Everaldo Pontes, Léa Garcia 


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  1. Olá!, só gostaria de fazer uma correção. A trilha sonora original do Sudoeste é de autoria de Yuri Villar, Cristiano de Abreu e Tiago Azevedo.
    Obrigado.

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  2. Oi, Yuri. Obrigado pelo toque. Usamos a ficha técnica do site do Festival do Rio 2011, mas já corrigimos. Parabéns pelo belo trabalho.

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