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O novo filme de Almodóvar. Não seria necessário ir muito além desse argumento para convencer qualquer cinéfilo a assistir A Pele que Habito. Mesmo para quem não conhece profundamente sua filmografia, obras como Tudo Sobre Minha Mãe, Volver e Fale com Ela estão entre aquelas que povoam a memória, fazendo pensar sobre a riqueza da vida. Por isso, não surpreende o fato de seu novo longa ter sido escolhido para abrir o Festival do Rio 2011.

Mas a surpresa em A Pele que Habito é garantida por duas razões. A primeira delas é característica recorrente nos filmes do diretor: a capacidade de criar tramas totalmente inesperadas e criativas, que se mantêm em mistério na maior parte do filme, e finalmente se revelam, deixando o público meio embasbacado. A segunda razão é a introdução de elementos que, de certa forma, são inéditos em suas histórias: o uso do tempo futuro, e a ficção científica; mesmo que ambos tenham sido introduzidos de forma moderada.

Um dos grandes parceiros de Almodóvar, Antonio Banderas (de Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos), interpreta o Dr. Robert Ledgard, um importante cirurgião plástico engajado na pesquisa de manipulação celular. Dr. Ledgard apresenta as novas descobertas de sua pesquisa à comunidade científica, que resultam na criação de uma nova pele humana, uma "super pele", resistente a extremos de calor e a outros tipos de agressão. Citando as vítimas de acidentes que ficam desfiguradas, Ledgard argumenta que para elas não é suficiente sobreviver, é necessário obter suas feições de volta, e assim, sua própria identidade, algo que sua criação também é capaz de fazer.

Os avanços científicos alcançados pelo cirurgião deixam seus colegas admirados, mas ao mesmo tempo levantam uma série de desconfianças sobre os meios que Ledgard teria utilizado para chegar a resultados tão impressionantes, pois tais resultados sugerem que ele tenha utilizado métodos não aceitos pelo conselho de ética da comunidade científica e pela lei vigente. A partir de então, o filme se volta para a vida pessoal e misteriosa do Dr. Ledgard, e pouco a pouco, descobrimos tudo o que está por trás de sua criação.

Apesar de dizer que Almodóvar introduz a ficção científica em sua obra, seu filme está longe de ser classificado como tal. Além de a "super pele" do Dr. Ledgard estar bem próxima dos procedimentos estéticos atuais, a discussão sobre as manipulações científicas no desempenho do corpo humano está mais em pauta do que nunca, e não é de hoje que pessoas como o artista Stelarc acreditam que o corpo humano está obsoleto.

Exemplos reais dessa tendência não faltam. Nas últimas Olimpíadas, realizadas em 2008 em Pequim, foram chamados de doping tecnológico os maiôs da Nasa que fizeram os nadadores baterem recordes em todas as modalidades, e as próteses no lugar das pernas do corredor Oscar Pistorius, que o colocavam em vantagem frente aos melhores corredores do mundo com suas pernas naturais.

Com isso, Almodóvar deixa seu filme totalmente contextualizado em uma das questões mais polêmicas de nosso tempo, e até prevê situações que ainda estamos por vivenciar. Ademais, para deleite de seus fãs, outras características marcantes do cineasta marcam presença: o uso de cores fortes e vivas na fotografia, a coexistência do humor e da tragédia no cotidiano, e a sexualidade como uma característica humana sempre muito importante.



A Pele que Habito (La Piel que Habito) – 117 min
Espanha – 2011

Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar e Augustín Almodóvar – Baseado na novela Mygale, de Thierry Jonquet
Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo

Estreia: 06 de outubro (Festival do Rio 2011) – Filme de abertura
Estreia: 04 de novembro (circuito)


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  1. Se o filme for tão bom quanto a sua resenha, com certeza estará entre os melhores para mim. Parabéns!

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