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O Palhaço é apenas o segundo filme de Selton Mello como diretor, mas já pode ser considerado como a demonstração da personalidade característica de um dos artistas mais completos do cinema nacional. Em cartaz no Festival do Rio 2011, como hors-concours da Première Brasil, o filme já desperta curiosidade e debates, mesmo antes da estreia em circuito comercial (que será dia 28 de outubro).

Além da direção irretocável, madura e sensível, Selton também é protagonista da obra e, ao lado de Valdemar (Paulo José, de Meu País), seu pai e parceiro de picadeiro, forma a dupla de clowns Pangaré e Puro Sangue. A retratação da vida circense itinerante é cuidadosamente detalhada e os movimentos e expressões faciais dos palhaços, dotados de uma comovente graciosidade.

Trilha e efeitos sonoros, movimentos de câmera, textura das cores e fotografia, direção de arte e figurinos... os aspectos técnicos do filme são primorosamente executados e amplificam os sentimentos conflituosos de Benjamim (Selton Mello, de Lope), no processo de caracterização de um universo tão particular que é o dos palhaços, composto, ao mesmo tempo, de alegria e tristeza, felicidade e melancolia.

As técnicas de direção e a escolha por enquadramentos que contribuem para que os personagens interajam com a câmera, com simples olhares que dizem mais do que diálogos extensos, são fatores importantes e que remetem, inclusive, ao neo-realismo italiano. Em Noites de Cabíria (1957), do mestre Fellini – que também já visitou o universo circense em Os Palhaços (I Clowns, de 1970) –, ou em Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio de Sica, seus protagonistas, em momentos-chave, olham para a câmera como se estivessem dialogando com o espectador. As referências presentes no filme de Selton demonstram a profundidade de sua obra.

Benjamim não tem carteira de identidade, CPF ou comprovante de residência, apenas uma certidão de nascimento mal conservada, fato que faz referência à sua vida sem raízes, segurança ou endereço fixo: uma alusão à realidade comum de artistas de circos itinerantes, que fazem rir no palco, mas choram nos bastidores. Estes elementos que criam representações metafóricas das angústias e dúvidas do personagem, assim como os devaneios que apresenta, contribuem para amplificar a sensação da dualidade de seus conflitos, apresentada em forma de comicidade dramática. Já a recorrente presença da figura de uma criança (Guilhermina) remete à inocência infantil, em contraposição à amargura da vida adulta. “Eu faço o povo rir, mas quem é que vai me fazer rir? Tô precisando”, diz Benjamim.

As viagens pelo interior do país são feitas com a trupe do Circo Esperança, que compõe um mosaico de personagens extravagantes e impagáveis. Destaque para as participações especiais de Tonico Pereira e Moacyr Franco (Delegado Justo), que faz sua estreia no cinema aos 75 anos e protagoniza uma das melhores cenas do filme. O roteiro apresenta cenas e diálogos inteligentemente construídos e muito bem executados. Comédia com elementos de drama ou drama com elementos de comédia? A junção destes gêneros aparentemente opostos enriquece esta verdadeira pérola do cinema nacional. Imperdível.


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O Palhaço – 88 min 
Brasil – 2011 
Direção: Selton Mello 
Roteiro: Selton Mello, Marcelo Vindicato
Elenco: Selton Mello, Paulo José, Larissa Manoela, Teuda Bara, Álamo Facó, Cadu Fávero, Giselle Motta, Fabiana Karla, Jorge Loredo, Jackson Antunes, Moacyr Franco, Erom Cordeiro, Hossen Minussi, Maíra Chasseraux, Thogun, Bruna Chiaradia, Renato Macedo, Tony Tonelada, Tonico Pereira, Ferrugem, Danton Mello 

Em cartaz no Festival do Rio 2011
Estreia (circuito): 28 de outubro

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  1. Mto obrigada, Matheus, por citar os efeitos sonoros.

    O Palhaço é um filme pra se ver e pra se ouvir

    Abs

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  2. Oi, Rosana. Obrigado pelo comentário e parabéns pelo excelente trabalho!

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  3. só a fotografia linda desse filme já é o suficiente para me fazer querer vê-lo.

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