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A vida no asilo La Milagrosa é monótona e parada, como crê-se que deve ser um lar para idosos. Sem família, abandonados aos cuidados da enfermeira Rosa, nem sempre muito saudáveis e tentando salvar o que lhes resta de dignidade, os velhinhos passam seus dias sem esperança, em frente à televisão. O máximo por que lutam é a escolha do canal, já que só há um aparelho. Tudo isso vem abaixo quando vários eventos se sucedem e despertam em todos a ânsia da novidade e o medo da mudança, sentimentos conflitantes e há muito esquecidos.

A morte de uma colega de asilo, a chegada de uma nova moradora, a intempestiva presença de um novo cuidador, apelidado de A Bruxa, e a notícia de que Jesus Cristo fora clonado e estaria reunindo cientistas para buscar a cura do HIV, são mais do que suficientes para promover entre os idosos um novo tipo de esperança. E com todos esses fatos acontecendo, eles se sentem vivos novamente e preparados para retomar parte da história, ainda que seja só a deles mesmos.

Filmado na Argentina, com atores há muito sem trabalho devido à sua idade, O Levante soube retratar tão fielmente a realidade da velhice que chega a nos surpreender o fato de o diretor e roteirista Raphael Geyer Aguinaga ser um homem jovem. Não se trata somente do asilo e do quão real ele é, e sim do clima como um todo. É possível sentir o frio e a desesperança, e ainda assim um apego aparentemente inútil pela vida, pelos olhos daqueles senhores e senhoras. O roteiro é de uma simplicidade ímpar, com alguns elementos fantasiosos e exagerados, mas se presta muito bem à ficção leve do filme. A pérola desta história não está no roteiro, entretanto. Ela vive nos detalhes, sob a fresta das portas carcomidas, no apego a um rádio de pilha, na hipocondria e nas memórias do que cada um foi e já não consegue mais ser. E, claro, na direção e na interpretação dos atores.

Se clonar Jesus Cristo lhe parece inverossímil, aqueles idosos não o são. Eles são reais, estão vivos, e vão mostrar pra você que a vida não tem que terminar num asilo com outros velhos, esperando para morrer. Assistir O Levante é como ser transportado para o asilo: primeiro parece tedioso, depois entra-se no ritmo daquela vida, e por final não queremos mais sair dali. E o melhor de tudo é que não saímos chorando do cinema, pois o diretor nos brinda com uma última cena fantástica, nos permitindo recobrar a dignidade e levantar da poltrona de sorriso estampado no rosto. Se você já tem mais idade, leve seu neto ao cinema. Se você pretende ser velho algum dia, chame seu avô e apreciem uma tarde juntos. Um tem muito a ensinar ao outro, e este filme tem muito a dizer aos dois. 

Por: Stefano Aguiar 

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O Levante (La Sublevación) – 95 min 
Argentina, Brasil – 2011 
Direção e Roteiro: Raphael Geyer Aguinaga
Elenco: Marilu Marine, Arturo Goetz, Luis Margani, Lidia Catalano, Graciela Tenenbaum 

Em cartaz no Festival do Rio 2011

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