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Meu País, o primeiro longa de André Ristum, é mais uma parceria dele com a Gullane Filmes e mais uma destes últimos com Rodrigo Santoro (cujo primeiro filme – Bicho de Sete Cabeças – também foi produzido pelos irmãos Gullane, sendo o primeiro longa de Laís Bodanzky e primeiro do roteirista Luis Bolognesi, seu marido). Curiosidades à parte, esta grande família do cinema brasileiro cresceu, amadureceu após estes anos e tem feito história aqui e lá fora. Esta passagem de tempo fica evidente neste novo filme.

Em atuação convincente e sólida, Santoro é o centrado e racional Marcos, paulistano vivendo como cidadão italiano em Roma, com uma bela esposa italiana e uma carreira brilhante no mercado acionista do país. Porém, quando falece seu pai Armando (Paulo José, incrível), ele é chamado pelo irmão Tiago (Cauã Reymond, de Não Se Pode Viver Sem Amor, que também está bem e também já se projetou internacionalmente no cinema), regressando assim à terra que há muitos anos deixou para trás. Tiago é o oposto de Marcos: gosta de uma bagunça, está afundado em dívidas de jogo e corre risco de perder as empresas e terrenos que a família possui e que ele comanda com irresponsabilidade.

A reaproximação dos irmãos não será tão tranquila, principalmente quando entra na história o verdadeiro elemento perturbador, uma meio-irmã, Manuela, mentalmente limitada, internada em uma clínica, fruto de uma relação extra-conjugal do falecido Armando: é Debora Falabella, num trabalho delicado e muito comovente. Esta menina, que tem idade mental de uma criança, vai abalar as estruturas da família, principalmente de Marcos, que terá que escolher entre seus dois mundos: suas raízes e seu presente estável e promissor.

O roteiro (de André Ristum, Octavio Scopellitti e Marco Dutra) se desenvolve de maneira muito instigadora; é um filme relativamente curto, que emociona e traz mensagem sincera e simples sobre amizade e união entre irmãos, raízes, distância, solidariedade, pertencer a algo ou a um lugar, e como abdicamos das coisas e nos entregamos, ou não, a isso tudo. A relação de Marcos com Manuela é tocante, assim como há muita química também entre o casal de atores Santoro e Anita Caprioli (que faz sua esposa, apaixonante e igualmente em boa atuação). Há igualmente, de modo geral, visível e positiva influência de alguns diretores e clássicos do cinema italiano.

Vale ressaltar a fotografia belíssima de Meu País, trazendo névoas e flashbacks, vez ou outra, amarrados a uma trilha de pegada clássica, não muito ousada, mas na medida certa, encaixando bem com o nível de emoção das cenas. O preparo de atores (e do cachorro da família, muito bem treinado, ou dirigido) é de alta qualidade, e, em conjunto com a experiência internacional deles, deixa-os no tom e clima adequados para interagirem, seja em italiano, seja em português.

Boa estreia de Ristum na direção e equipe, que, em termos técnicos, não fica devendo às grandes indústrias da sétima arte do mundo, nesta nossa busca pela cara do cinema brasileiro. O próprio enredo do filme nos faz refletir sobre nossas raízes culturais, nossas heranças no cinema, nossa identidade e amadurecimento audiovisual. 

Por: Will Pereira



Meu País – 95 min
Brasil, Itália – 2011
Direção: André Ristum
Roteiro: André Ristum, Octavio Scopellitti, Marco Dutra
Elenco: Rodrigo Santoro, Cauã Reymond, Debora Falabella, Anita Caprioli, Nicola Siri, Eduardo Semerjian, Norman Mozzato, Luciano Chirolli, Stephanie de Jongh, Homero Kossac
Participação Especial: Paulo José 

Estreia: 07 de outubro

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