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Trinta

Crítica - A Hora e a Vez de Augusto Matraga (Festival do Rio)

16 de outubro de 2011


Após o primeiro confronto com um bando de jagunços, Augusto Matraga se dirige ao único sobrevivente e o ameaça: “Volta lá e avisa a eles que você deu de frente com o diabo”. O tom representa um dos inúmeros traços da complexa personalidade de um dos personagens mais marcantes da literatura brasileira. O filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga, do novato diretor Vinícius Coimbra, é a segunda adaptação para o cinema do conto do escritor mineiro Guimarães Rosa. A primeira foi dirigida por Roberto Santos, em 1965. A estreia em longa-metragens de Coimbra não poderia ser melhor. Esteticamente belo, e com elenco afiado, a obra ainda conta com um roteiro que valoriza as nuances das figuras humanas e – principalmente – o idiossincrático, e denso, texto de Rosa.

Augusto Matraga (João Miguel, que seguramente está entre os melhores atores do cinema nacional) é um fazendeiro destemido e vingativo, que confia apenas no seu braço direito Quim (Irandhir Santos, de Tropa de Elite 2). Quando sua mulher o trai e foge com outro homem, ele busca vingança, mas é capturado por vários jangunços a mando de um coronel da região (Chico Anysio, de Uma Professora Muito Maluquinha, em participação louvável), espancado e dado como morto. Porém, Matraga é salvo por um casal de religiosos que passa a tratá-lo como filho. Ele se transforma em um homem fiel aos princípios de Deus.

A personificação do diabo transfigura-se em homem com bondade divina. É claro, porém, que na mesma moeda existem as duas faces, e é difícil definir em qual dos lados a presença do anti-herói é mais significativa. No encontro entre Matraga e Joãozinho Bem-Bem (José Wilker), sua devoção será posta em cheque. Graças ao roteiro, que o dimensiona perfeitamente dentro da narrativa, e à soberba caracterização de João Miguel, os contornos múltiplos deste personagem genial funcionam perfeitamente na telona. Há, aliás, uma delicada aura messiânica que permeia os deslocamentos nômades do protagonista, e o filme como um todo. A sequência na qual Augusto divide um pedaço de pão, e distribui votos bondosos a um homem cego, exemplifica esse traço.

O trabalho técnico da obra é de extrema competência. A fotografia de Lula Carvalho (do documentário Carta para o Futuro) presenteia o espectador com belíssimos quadros ao expor sombras na luz amarela, que ilustram os tipos perigosos que habitam aquela paisagem rústica, cuja poeira é ressaltada em cenas filmadas pela manhã. Os cenários e a direção de arte são, da mesma forma, concebidos com extremo zelo. A Hora e a Vez de Augusto Matraga é um faroeste sertanejo-mineiro- brasileiro, com o toque peculiar de um artista das palavras, que deixa sua marca nas frases impactantes e poéticas. Saudosos neologismos. Saudoso Guimarães Rosa. 


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A Hora e a Vez de Augusto Matraga – 106 min 
Brasil – 2011
Direção: Vinícius Coimbra
Roteiro: Manuela Dias, Vinícius Coimbra – Baseado na obra de Guimarães Rosa
Elenco: João Miguel, José Wilker, Vanessa Gerbelli, José Dumont, Chico Anysio, Irandhir Santos, Gorete Milagres, Werner Schunemann, Vinícius de Oliveira 

Em cartaz no Festival do Rio 2011

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