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A entrada na puberdade, e todas as transformações que isso representa, vistas a partir do olhar da própria adolescente, é o que traz Corpo Celeste, filme de estreia de Alice Wohrwacher. A diretora italiana aponta sua câmera para as classes populares e seus hábitos e crenças, o que na Itália significa uma forte religiosidade, que se manifesta em quase todos aspectos da vida cotidiana do país. 

Marta (Yle Vianello) tem 13 anos e acabou de voltar à Itália, após anos vivendo na Suíça. Além do estranhamento que a mudança lhe traz, ela sabe que é uma outsider. Não mais uma menina, embora ainda não uma mulher, procura seu lugar no mundo. Entre as aulas de catecismo e as pequenas brigas com a irmã mais velha, Marta espera algo acontecer. Sua espera, porém, não é passiva; ela busca algo que não sabe o que é. Por isso questiona as verdades que lhe foram impostas, principalmente as religiosas.

Na sua ânsia por se encontrar, Marta usa sem permissão o sutiã de sua irmã, corta os cabelos bem curtos e, apesar de tímida e calada, mantém uma atitude que é interpretada como rebeldia por Santa (Pasqualini Scuncia), responsável por ensaiar os jovens que, como ela, estão se preparando para o dia em que vão confirmar sua fé. Apesar de desinteressados, eles são considerados “normais” por Santa, enquanto Marta é vista como “estranha”.

O encontro com Don Mario, pároco da pequena cidade, vai ser decisivo para ela. Após seguir aflita um funcionário da igreja que vai afogar filhotes de gatos que nasceram na igreja, vê-se diante do religioso. Com ele, vai buscar um grande crucifixo numa aldeia e, ao dizer-lhe que em uma passagem da Bíblia Jesus Cristo é chamado de louco, provoca um acidente que causa a perda da cruz. Ao mesmo tempo, tem sua primeira menstruação. Tudo isso representa uma espécie de libertação para a garota, que pode assim participar da cerimônia de comunhão.

A jovem Yle Vianello (Marta) demonstra uma segurança incomum em atrizes de sua  idade. Diz quase tudo apenas com seus silêncios e olhares. A diretora Alice Wohrwacher tira partido disso e investe em longos planos em close sem que Vianello se intimide. O restante do elenco também tem um desempenho admirável,  principalmente Salvatore Cantalupo (Don Mario) e Pasqualina Scuncia (Santa), além da participação de Anita Caprioli, que atuou com Rodrigo Santoro em Meu País, coprodução Brasil/ Itália. Um filme intimista, com ritmo mais lento que o usual e lacunas que chegam a incomodar às vezes, mas que exigem atenção aos detalhes e provocam reflexão, levando a descobertas que Marta, do alto dos seus 13 anos, já está começando a fazer.

Por: Gilson Carvalho

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Corpo Celeste – 100 min 
Itália, Suíça, França – 2011
Direção e Roteiro: Alice Rohrwacher
Elenco: Yle Vianello, Salvatore Cantalupo, Pasqualina Scuncia, Anita Caprioli, Paola Lavini 

Em cartaz no Festival do Rio 2011

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