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Após a sessão do documentário Carta para o Futuro, uma certeza fica clara: a melhor forma de conhecer um país é se relacionar com os habitantes locais, manter-se próximo aos costumes, aos papos informais que antecedem o jantar. Foi o que fizeram o cineasta Renato Martins e a equipe técnica do filme, que também conta com o gabaritado fotógrafo Lula Carvalho (de A Falta que nos Move), quando passaram sete anos em Havana, no convívio com uma típica família cubana, e também entrevistando outras pessoas do país de Fidel Castro. Extremamente sensível e com personagens politizados que transbordam senso de humor, Carta para o Futuro não cai na armadilha do didatismo e é mais um trabalho documental que prova o grau de excelência da produção cinematográfica brasileira neste segmento.

Mirian tem pouco mais de 60 anos e vive com seu pai, o revolucionário Pipo, que é completamente lúcido aos 90, a filha Yulme e dois netos: Christina e Diego, a figura humana mais interessante do filme, um garoto inteligente, que fala com entusiasmo sobre sua rotina diária. O minucioso relato do rapaz – em 2003, ano que o documentarista desembarcou na ilha, ele tinha cerca de 8 anos – prova a qualidade do ensino público no país. A história é ensinada de forma distorcida em prol da manutenção de um ideário comunista nas novas gerações? Talvez. É inegável, porém, que o apreço pela conscientização política, social e econômica seja estimulado desde cedo naquela sociedade. E é incrível como as pessoas de todas as idades se expressam bem; com clareza e excepcional argumentação.

Cuba é um lugar paradoxal. Ao mesmo tempo em que a população tem acesso à educação e saúde de primeira linha, as moradias precárias, o rígido controle da venda de alimentos e a constante falta de água e energia elétrica escancaram a pobreza e a incerteza em relação ao futuro da ilha. Acertando por não fazer uma ode cega ao país de belas canções e exuberantes cenários naturais, o documentário tampouco se transforma em uma unifacetada e maniqueísta crítica social. Os entrevistados amam o país, mas não escondem o descontentamento com os problemas – dentre eles, as consequências nefastas do embargo econômico.

Com bela fotografia granulada, que nos apresenta com intimismo os cômodos das casas dos personagens, Carta para o Futuro expõe uma Cuba diferente em relação àquela que somos acostumados a ver nos – muitas vezes – tendenciosos programas televisivos (sejam de esquerda ou de direita). Saudoso registro. Antes de estrear no Brasil, o longa será exibido no fim de 2011 na Alemanha, em aproximadamente 60 salas. 


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Carta para o Futuro – 88 min 
Brasil, Portugal, Alemanha2011 
Direção: Renato Martins 

Em cartaz no Festival do Rio 2011

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