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A confusão deste filme tem início justamente em seu título, ao unir “Brasília” com “Formosa”. Como brasileiros sabemos que estas duas palavras dificilmente cabem na mesma frase... e depois, com o nome do bairro, Brasília Teimosa... é justamente a bela e constante confusão de pensamentos, trilhas, ruídos, imagens em alta definição, sequências de baixíssima qualidade e a inter-relação entre os personagens deste docudrama que podem gerar um vasto sorriso após a sessão. De início, um plano estático na fachada sem reboco de uma residência popular, conhecida popularmente como sobrado, faz refletir sobre a arquitetura nas regiões periféricas de Recife; esta sequência ganha corpo com a trilha sonora de um tecno-forró.

A apresentação dos personagens principais acontece de forma singular e espontânea. Como na ordem da vida, o primeiro que nos é apresentado é uma criança, o Cauã, em plano fechado, que subjetivamente reforça a ideia de “mundo apertado” no qual ele vive; ele brinca com blocos de montar, como quem ainda quer construir algo em sua vida. A segunda protagonista, Débora, aparece atendendo mais um de seus clientes no salão de beleza, e se mostra como uma mulher que luta para conseguir tudo o que deseja.

Em seguida é apresentado o Alexandro fazendo reparos em sua rede de pesca; o movimento do ir e vir das mãos é extremamente explorado pela câmera, que aponta como foco as habilidades dos pescadores em recobrir e reparar os buracos feitos pelos grandes peixes. Por último somos apresentados ao Fábio, um jovem que trabalha num restaurante à beira do mar e utiliza uma câmera de vídeo para reforçar a renda da família. Num primeiro momento poderíamos cair em desilusão ao pensar que este seria mais um filme sobre mazelas sociais que atingem a população do Nordeste, com clichês repetitivos acerca da seca, das mulheres morenas e sensuais e dos velhos homens sem dente que mal conseguem construir um diálogo. Afinal, esta é a grande representação estereotipada que figura nas regiões abaixo da Bahia.

Mas, na verdade, este material faz questionar justamente a mistura e singularidade deste povo. Utilizando como elemento de ligação a Avenida Brasília Formosa, o diretor Gabriel Mascaro (de Um Lugar ao Sol) apresenta numa série de constantes desdobramentos a alteridade destas personas. “A mistura do doc com ficção é proposicional, para causar mesmo essa estranheza”. Com isso, num constante jogo de verdade e ficção o filme consegue enganar qualquer desapercebido acerca dos fatos, e isso torna a obra bastante interessante.

A trilha sonora e o som são outros destaque desta produção. As músicas de Edson Gomes, Calcinha Preta, Cavalo de Pau, dentre outros bastante populares na região Nordeste se misturam às conversas e aos inúmeros ruídos que compõem a vida dos personagens. Interessante pensar que num cotidiano marcado pela falta de glamour, a trilha sonora é tão essencial quanto num filme hollywoodiano: os personagens, em 90% do filme, estão acompanhados de uma música de fundo ou cantando ou falando sobre uma determinada música.

Os personagens principais nada mais são do que um detalhe da grande Avenida, que ao mesmo tempo se fazem como um diferencial no meio de milhares de outros moradores, essenciais não por serem os melhores, mas por serem Eles, simplesmente como são (ou querem ser). Os detalhes do dia-a-dia, uma panela a ser lavada, uma unha a ser pintada, aprender a escrever o próprio nome e rebater o amigo que te chama de “gaiado” (corno) é que os torna um diferencial.

Gabriel Mascaro afirma que “a relação entre os moradores e a rua é bastante interessante em Brasília; eles colocam as cadeiras em frente à porta de casa, ficam assistindo a TV que está dentro da sala  e conversam com as pessoas que passam na rua. Ao mesmo tempo ficam observando tudo que acontece ao redor”. Ao reproduzir este cotidiano a partir de situações na maioria das vezes criadas por ele, os acontecimentos habituais atravessam e são atravessados pela arte.

Por: Robyson Vilaronga

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Avenida Brasília Formosa – 85 min
Brasil – 2010 
Direção e Roteiro: Gabriel Mascaro 
Elenco: Cauan Fonseca, Fábio Gomes De Melo, Alexandro José De Oliveira, Débora Leite 

Em cartaz na Sessão Vitrine

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