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Quem acompanhou a entrevista com o diretor Marco Dutra, com certeza aguardou o próximo episódio. O Cinema na Rede conversou também com os atores protagonistas de Trabalhar Cansa. O casal vivido por Marat Descartes e Helena Albergaria enfrenta algumas instabilidades em seu relacionamento, depois que Otávio é demitido de uma multinacional e Helena resolve montar seu próprio negócio. Coisas estranhas começam a acontecer na casa e no minimercado de Helena. E é com esse tom de suspense e realismo fantástico que se desenrola uma história imperdível.

Marat Descartes, que tem esse nome em função de uma homenagem ao líder da Revolução Francesa Jean-Paul Marat e ao filósofo René Descartes, fez seu primeiro protagonista no cinema em 2010, no longa Os Inquilinos, de Sergio Bianchi. Já a atriz Helena Albergaria participou de alguns curtas para o cinema, inclusive com o diretor Marco Dutra. Na entrevista concedida ao site, os atores falaram sobre seus personagens em Trabalhar Cansa e sobre o trabalho com Marco Dutra e Juliana Rojas. Nosso repórter Bruno Mendes estava à frente do bate-papo, que você confere aqui no Cinema na Rede.

Entrevista Marat Descartes

Cinema na Rede: Como foi atuar em Trabalhar Cansa?

Marat Descartes: Atuar em Trabalhar Cansa foi maravilhoso! É sempre muito bom trabalhar com a turma do Filmes do Caixote, eles têm uma sintonia enorme, e sobretudo com a dupla Ju e Marco, com quem eu já tinha feito o curta Um Ramo, no qual a Helena Albegaria e eu também fazíamos o casal central. Além do ingrediente de terror que os filmes da dupla sempre apresentam, e que me interessa muito, porque nunca é um terror gratuito, sempre está associado a estados psíquicos das personagens, e mais que isso, em Trabalhar Cansa o terror surge na trama traduzindo a monstruosidade, ou a des-humanidade, com que as relações de poder podem se estabelecer na sociedade, mais precisamente entre os papéis sociais que surgem nas relações de trabalho.  

Os personagens foram construídos ao longo dos ensaios, durante os quais pudemos inclusive re-trabalhar diálogos junto com o Marco e a Juliana, e o mais importante, encontrar as relações das personagens nos diversos estágios da trama.

CR: O que você diz sobre a frustração de Otávio? Você conhece algum homem na faixa etária dele que enfrentou problemas similares por estar desempregado? 

MD: A frustração de Otávio, ou as sucessivas frustrações de Otávio, o conduzem à depressão. E a depressão, por sua vez, vai "empacando" o Otávio, vai fazendo com que ele realmente não consiga mais se reestabelecer profissionalmente. Ele começa a trama perdendo o emprego, mas devido aos 10 sólidos anos em que esteve empregado na grande empresa que o demitiu, ele acredita que não será difícil logo "se arranjar" no mundo corporativo, e é essa esperança que vai sendo frustrada, na medida em que ele é obrigado a se submeter a uma busca cada vez mais humilhante por trabalho, ao mesmo tempo em que vê a esposa, que passa a ser uma empregadora e arrimo da família, se tornar uma déspota nas relações com os empregados dela, e também agressiva com o novo poder que ela assumiu no ambiente doméstico.

Hoje em dia os níveis de desemprego no Brasil estão menos alarmantes, mas há não mais de vinte anos era uma situação muito comum pessoas ficarem desempregadas por um longo período, até terem de se submeter a condições de (sub)emprego que não  condiziam com suas trajetórias profissionais, que é o que acontece com Otávio. De qualquer forma, o filme não se preocupa em se situar historicamente, numa determinada época de recessão, ou de crescimento econômico do nosso país. Ao contrário. O drama não só do Otávio, mas de cada uma das personagens de Trabalhar Cansa, é atemporal, é um drama ancestral, de como o ser humano tende a agir conforme tenha mais ou menos poder que seu semelhante.

Entrevista Helena Albergaria

Cinema na Rede: O que você tem a dizer sobre sua xará Helena

Helena Albergaria: A minha xará Helena é uma mulher de classe média que trabalha como dona de casa e resolve abrir um mercado. Como simultaneamente o marido fica desempregado, ela passa a ser o arrimo da família. Ela tem que aprender a ser patroa e adaptar-se às suas novas relações também em casa, já que contrata uma empregada para ajudá-la com a filha e nos afazeres domésticos. Quando o Marco Dutra e a Juliana Rojas me convidaram para o filme, me deram o lindo poema Trabalhar Cansa, de Cesare Pavese. Acho que dele a Helena herdou certa melancolia e uma forte vontade de pertencer a algum lugar ainda não encontrado.

CR: Na sua opinião, como Helena lida com os problemas do cotidiano?

HA: Por ela estar vivendo novas relações cotidianas em casa e no trabalho, e pela brutalidade sutil com que as coisas acontecem, ela lida sem muita habilidade com seus novos e desconhecidos problemas. Entretanto, ainda que de um modo torto, não deixa de enfrentá-los.

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