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O Dogma 95 é um movimento cinematográfico criado pelos cineastas Thomas Vinterberg (de Festa de Família) e o polêmico Lars Von Trier (de Melancolia), que propõe um cinema mais ‘puro’ e realista, sem o uso de recursos tecnológicos. O manifesto tem uma série de regras, que proíbem, por exemplo, a utilização de truques fotográficos, iluminação especial e o som produzido separado da imagem. Apesar de alguns filmes seguirem as determinações ao pé da letra, os responsáveis ignoraram as regras em muitos trabalhos e há quem aponte que o Dogma morreu. Em Submarino, Vinterberg faz prevalecer o zelo pelo realismo, inclusive com uso discreto da trilha sonora, mas, passados 16 anos da criação do manifesto, a fidelidade irrestrita não é mais necessária. Bom para o filme.

O enfoque da obra está nas relações familiares; nas consequências nefastas de um trauma da infância, ao longo da vida. Nick e o irmão cuidam do caçula, pois a mãe vive bêbada. Certo dia, os dois adormecem após beberem vodca, e o bebê morre no berço. Anos se passam e Nick não superou o trauma do ocorrido. Sem contato com o irmão, ele já foi preso por roubo, bebe excessivamente e está longe de ter uma vida estável e feliz. Quando sua mãe morre, Nick reencontra o irmão, um homem sem nome, viciado em heroína, que tem um filho pequeno. 

Submarino é um drama denso. O pessimismo é exalado pela atmosfera opressora da obra, concebida na fotografia preenchida por paisagens cinzas, e na cenografia, marcada por cômodos pequenos, sem espaço. E mesmo em apartamentos mais espaçosos – o lar do irmão de Nick –, a falta de móveis, objetos, e a ausência de cores ilustram o vazio existencial daqueles que o habitam. A segura direção de Vinterberg é uma marca do filme. Na tragédia inicial – com o bebê – não há som, e a sucessão de imagens, com os planos próximos, tem efeito desconcertante. 

O roteiro apresenta altos e baixos. O drama de Nick – com foco na sua bebedeira, relacionamento íntimo efêmero, e na amizade com um sujeito de comportamentos duvidosos – é apresentado com correção, mas não traz novidades. É menos interessante que o enfoque no drama vivido pelo seu irmão, que tem que esconder do filho que é dependente químico. Ambíguo; o personagem, ao mesmo tempo em que expõe o amor incondicional pelo garoto, não faz por onde abandonar o vício em heroína, e enfrenta todos os riscos na comercialização de drogas

Não há violência explícita em Submarino, mas a sensação de ‘soco no estômago’ presente em filmes de Iñárritu (de Biutiful) – esse filme, aliás, faz lembrar as obras do cineasta mexicano – vem à tona pela exposição minimalista do sofrimento de personagens traumatizados. O Dogma trouxe lições importantes à Vinterberg, mas é possível conceber uma obra realista, com o uso de certos artifícios do cinema. O cineasta amadureceu, pois percebeu que não é preciso manter-se preso às amarras de um manifesto para produzir uma obra eficiente.




Submarino – 110 min
Dinamarca – 2010
Direção: Thomas Vinterberg
Roteiro: Tobias Lidholm, Thomas Vinterberg
Elenco: Jakob Cedergren, Peter Plaugborg, Morten Rose

Estreia: 02 de setembro (Porto Alegre e Vitória)
Estreia: 09 de setembro (São Paulo e Salvador)
Estreia: 16 de setembro (Belo Horizonte e Florianópolis)
Estreia: 04 de novembro (Rio de Janeiro)

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