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Claire Denis (de Minha Terra, África) é uma diretora bastante fora dos padrões. Seja em seus enquadramentos e ângulos inusitados, seja na forma como constrói o conceito – nada simplista – de seus filmes; não consigo me lembrar de nenhum outro diretor(a) similar. Este O Intruso, de 2004, é parte do Indie Festival 2011, que começa dia 16 de setembro na cidade de São Paulo, no Cinesesc e no Cine Olido, festival que passa, todos os anos, por algumas cidades brasileiras, tendo nascido em Belo Horizonte.

Louis Trebor (Michel Subor) é o protagonista deste que pode até ser considerado um drama de espionagem, não só por ser inspirado em relatos verdadeiros de um “homem-perigo” e seu livro, mas porque está longe de trazer-nos clichês e lugares-comuns daquele tipo de filme de ação que se vê repetidamente por aí. O Intruso é denso, profundo, intrincado e vê-se, na verdade, um clima de mistério, uma sensação de investigação e segredo no ar, vide a trilha sorrateira em alguns momentos, o sax detetivesco e nebuloso, congestionado de questões não-resolvidas.

O personagem – que percebe-se ter ou ter tido uma profissão de risco ou algo do tipo –, vive isolado com seus cães em uma casa na Suíça, próximo à França, e tem a necessidade de um transplante de coração. Movido por esta urgência, segue uma busca, um rumo ainda indefinido que somos convidados a trilhar com ele. Jornada que o leva ao Taiti, metido com barcos, o mar, o mercado negro, um universo de tal forma ilícito e, principalmente, a procurar um filho seu que para este país partiu anos atrás. Curiosamente, um outro filho seu, que mora mais perto, não detém sua atenção.

Trebor possui bagagem (no sentido figurado), vivência. Marcas, diversas, espalhadas pelo corpo, devido ao seu estado de saúde, metaforicamente representam as marcas da vida, inconsoláveis, inevitáveis. Rude, bronco, ele sofrerá com a rejeição do novo órgão em seu corpo. Algo está se passando em seu íntimo (interno), nesta plenitude nunca alcançada, nesta busca por um filho (externo), algo que está a um continente de distância. Fala-se aqui sobre presença e sobre ausência.

O trabalho de câmera é espetacular, atento. Câmera soturna que invade lugarzinhos inesperados, extremamente próximos de seus objetos; uma nuca por exemplo, revelando-nos provavelmente a vontade de estar colado ao personagem, a essa busca infindável que ele executa. Também a fotografia, a luz pontual de Agnès Godard, é complementar a isso; impressionante como funciona muito bem sem focar-se tanto no aspecto de textura, no aspecto de grão, e sim na nitidez, deixando nossa atenção voltada para os fatos e personagens, que já são, por si só, muito difusos.

Uma observação importante: os trechos de flashback presentes no filme são aproveitados da adaptação não-concluída de A Ilha da Aventura, de Robert Louis Stevenson, feita por Paul Gégauff em 1961, acopladas às imagens feitas em 2004 por Claire Denis. Genial.




 O Intruso (L'Intrus) – 127 min
 França – 2004
Direção: Claire Denis
Roteiro: Claire Denis, Jean-Pol Fargeau – Baseado no romance de Jean-Luc Nancy
Elenco:
Michel Subor, Grégoire Colin, Yekaterina Golubeva, Bambou, Florence Loiret, Lolita Chammah, Béatrice Dalle

Estreia: 16 de setembro

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