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Com o objetivo de esclarecer e desmistificar diversas questões da cultura do Oriente Médio (assim como Oriente Próximo e países islâmicos do Extremo Oriente), o CineSESC apresenta, em São Paulo, a mostra Oriente Médio: Tradição e Revolução, com longas, curtas, documentários e palestras sobre Egito, Iêmen, Síria, Palestina, Israel, Turquia e Irã.

Um destaque desta rica programação é Mais que Mil Meses, o primeiro longa do marroquino Faouzi Bensaïdi, de 2003. Aliás, uma estreia muito bela e bem arquitetada. Mehdi é um menino cujo pai foi preso por questões políticas, na região campesina do Monte Atlas, no Marrocos. Para ele, dizem que o pai simplesmente está na França. A mãe do garoto, Amina, muda-se com ele para Casablanca, e agora pena para segurar as pontas com o filho, enquanto recebe visitas furtivas de um visitante noturno, parceiro “proibido” pelo qual não podemos julgá-la ou condená-la, pois sua situação é delicada, está desamparada e no fundo busca alguém para poder sustentar o garoto. 

Ao mesmo tempo, seu sogro, avô de Mehdi, entra em conflito com ela devido ao seu comportamento religioso e político extremista. Há confusão, há repressão por parte do Estado, e há a riqueza material evidente neste país. Este é o mote que se desenvolve nesta paisagem fabulosa, que nos sugere um western em alguns momentos. Personagem-chave também é a cadeira (sim, um acento) que é carregado pelo jovem Mehdi até a escola, e na volta também: a cadeira do professor, que em si não é e não se sente mais importante que a própria cadeira. É como se ela, sim, representasse o poder e a autoridade, e não quem nela senta. 

Um simbolismo interessante para analisarmos o radicalismo, o extremo, ou o absurdo (pelo menos para nós) presente na cultura destes países. Mehdi ganha poder por ser o ajudante do professor, e tem de castigar seus coleguinhas quando necessário, o que lhe trará consequências não muito boas. Faouzi, em sua direção, não procura explicar muito as coisas ou as pessoas, somente deixa a coisa fluir naturalmente, muitas vezes com humor – curioso como os cineastas destes países conseguem utilizá-lo com sabedoria sem quebrar a dramaticidade da história.

Interessante que não entramos muito “no interior” dos personagens, mas sim perifericamente. Vistos como cidadãos comuns, e que realmente assim o são no cotidiano destas comunidades, são mostrados mais em planos abertos, e raramente com muitos close-ups. O som também remete a algo provinciano, alguma música pop no rádio, algum clima nostálgico do começo ao fim. Com relação às cores e fotografia em geral, é preferível sua apreciação no cinema, na película, a fim de que se possa aproveitar a sutileza e os tons deste céu magnífico do filme. Eis mais um ótimo motivo para não perder a Mostra.



Mais que Mil Meses (Mille Mois ou A Thousand Months) – 2003
Bélgica, Marrocos, França – 124 min
Direção: Faouzi Bensaïdi
Roteiro: Faouzi Bensaïdi, Emmanuelle Sardou 
Elenco: Fouad Labied, Nezha Rahile, Mohamed Majd, Mohammed Afifi, Abdelati Lambarki, Mohamed Bastaoui, Brahim Khai, Abdellah Chicha, Mohamed Choubi

Estreia: 29 de setembro (Festival Cinema do Oriente Médio)

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