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A Casa de Sandro é uma obra pouco convencional. Enquanto documentários tradicionais investem em entrevistas ou narrativas dotadas de assertividade, o jovem cineasta Gustavo Beck opta por enquadramentos incomuns e takes longos. Sua câmera observa, predominantemente, à distância, com um olhar contemplativo e minimalista, e apresenta o artista plástico Sandro Donatello Teixeira sem aprofundamentos descritivos, mas sim em imagens de seu cotidiano.

A narrativa calma, pausada, não tem pressa de fazer as coisas acontecerem. Na verdade, a câmera cria um contraponto entre a inércia e o movimento, comparável à personalidade excêntrica de Sandro. Fato condizente com a escolha do título, o artista parece ser um coadjuvante em relação à sua casa, que é apresentada como protagonista durante quase toda a projeção. Em uma das poucas passagens em formato de entrevista, Sandro explica como desenvolveu uma hérnia, de forma bem humorada.

Impressionam a beleza das imagens e a qualidade de captação do som. A natureza parece dialogar com a câmera e Gustavo Beck (de Chantal Akerman, de cá), 28 anos, demonstra talento, reconhecido pelo prêmio de melhor diretor de longa metragem, concedido pelo CineEsquemaNovo 2009 e pela menção do júri da crítica da Mostra de Cinema de Tiradentes do mesmo ano.

A montagem é ao mesmo tempo intimista e ousada (assinam Fernanda Teixeira e o próprio Beck). Não há preocupação com cortes abruptos e frenéticos, aos quais o “cinema comercial” se acostumou. São perceptíveis sussurros por trás das câmeras, ajustes de foco... Passagens que, geralmente, são cortadas da edição final, mas que, em A Casa de Sandro, assumem contornos característicos. Inclusive, em uma das melhores cenas da obra, Sandro fala que determinado diálogo “depois vai ser cortado”. E não foi, o que contribuiu para quebrar o tom melancólico do filme.  

A Casa de Sandro é a prática de um cinema conceitual e orgânico, com características, de certa forma, até semelhantes ao trabalho de Sandro. A tela em branco vai sendo preenchida aos poucos, sem pressa, e assume formas inusitadas. As imagens de Beck parecem formar uma exposição, com a apresentação de um belo conjunto de quadros, em som e movimento: um exercício de cinema. A contemplação e o contato com a natureza (a casa de Sandro parece uma fortaleza verde, que o isola do mundo exterior) amplificam o sentimento de contraste que a vida do artista tem em relação ao convívio com a selva de pedra das grandes cidades.

Esta abordagem nem um pouco convencional diminui uma possível potencialidade mercadológica – o filme só estreia em duas salas, entre elas a recentemente reinaugurada do charmoso Cine Joia, em Copacabana, Rio de Janeiro –, fato compreensível pelo fato de que a intenção de A Casa de Sandro, claramente, não é o retorno comercial, e sim a experimentação artística no cinema.




A Casa de Sandro – 75 min 
Brasil – 2011
Direção: Gustavo Beck 

Estreia: 23 de setembro – Rio de Janeiro (Cine Joia) e Porto Alegre (Sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro)

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