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Uma mulher à frente de seu tempo, que escolheu amar e criar, a despeito de todas as barreiras, incluindo o apartheid, política de segregação racial em vigor na África do Sul entre 1948 e 1994. Assim é retratada a poeta sul-africana Ingrid Jonker (1933-1965) em Borboletas Negras (Black Butterflies), pela diretora holandesa Paula van der Oest, pouco conhecida no Brasil, mas indicada ao Oscar de filme estrangeiro de 2001 por Zus & Zo.

Ingrid Jonker morreu bem jovem, aos 31 anos, em 1965. Em sua curta, mas intensa vida, produziu poemas que ficaram bem conhecidos em seu país e mais tarde foram traduzidos para diversas línguas. Um deles, The Dead Child of Nyanga (A Criança Morta de Nyanga), foi lido pelo ex-presidente e herói nacional Nelson Mandela em seu primeiro discurso na assembleia democrática, em 1994, após o fim do apartheid. O toque trágico e irônico é que ela teve contra si o próprio pai, responsável pela censura na África do Sul àquela época.

O filme concentra-se nos últimos cinco anos de vida da poetisa. Uma breve introdução mostra o momento de sua infância em que conhece seu pai, Abraham Jonker (Rutger Hauer), com quem viria a ter embates até seus últimos dias. Um salto e Ingrid (Carice van Houten) quase morre afogada, mas é resgatada do mar pelo também escritor Jack Cope (Liam Cunningham). Após esse inusitado primeiro encontro, Ingrid e Jack passam a ter um romance, apesar de ambos estarem ainda em processo de divórcio. Um relacionamento conturbado, como quase todos da poetisa. Ao longo dos anos, eles se afastam e reatam diversas vezes, mas Jack, juntamente com outros escritores e intelectuais,  foi o responsável pela publicação do livro de poesias que consagraria Ingrid.

Narrada de modo convencional, a cinebiografia é enriquecida com a inclusão de poemas em diversos momentos de sua trajetória. Destacam-se o excelente trabalho de fotografia, com as belas paisagens do litoral da Cidade do Cabo contrastando com a pobreza dos bairros periféricos da cidade, onde os negros eram obrigados a viver. Além disso, gradações de tons quentes e frios, claros e escuros, denotam o estado de espírito da personagem. Os atores têm performances notáveis, destacando-se Carice van Houten no papel principal e Liam Cunningham como seu companheiro Jack Cope.

Um problema, inerente a qualquer obra do gênero, é a necessidade de se comprimir longos períodos de história em poucos minutos. Por isso, eventos cruciais, como a própria reação da artista contra o apartheid, central no drama, e os atribulados relacionamentos com vários homens parecem pouco aprofundados. Além disso, os diálogos soam um tanto forçados, principalmente no início, como se intelectuais e escritores falassem de modo literário o tempo todo.  O cômputo final, no entanto, é que Borboletas Negras cumpre muito bem a missão de reverenciar e tornar mais conhecida a vida e a obra de uma grande artista.

Por: Gilson Carvalho



Borboletas Negras (Black Butterflies) – 100 min 
Noruega, África do Sul,Alemanha – 2011
Direção: Paula van der Oest
Roteiro: Greg Latter
Elenco: Carice van Houten, Liam Cunningham, Rutger Hauer, Grant Swanby, Nicholas Pauling, Graham Clarke, Leon Clingman, Jennifer Steyn, Candice D'Arcy, Florence Masebe 


Estreia: 23 de setembro

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