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Este título não poderia ser mais adequado ao tema, à obra e ao criador que figuram no documentário de Carla Gallo, sobre o artista Nelson Leirner. Ele é parte do projeto ICONOCLÁSSICOS, promovido pelo Itaú Cultural, em São Paulo, que apresenta 5 personalidades, 5 artistas sob a visão de documentaristas já consagrados. Além do filme sobre Leirner, o projeto inclui: Daquele Instante em Diante, sobre o músico Itamar Assumpção, direção de Rogério Velloso; Ex isto, sobre Paulo Leminski, direção de Cao Guimarães; EVOÉ! Retrato de um Antropófago, sobre o dramaturgo Zé Celso Martinez Correa, por Tadeu Jungle e Eliane Cesar; e Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz, dirigido por Joel Pizzini, sobre o cineasta Rogério Sganzerla.


Realizado durante a exposição sobre Nelson Leirner que o Itaú Cultural promoveu e que originou, com outras exposições dos artistas retratados, o filme acompanha ele com seus quase 80 anos perambulando por ruas do Rio e de São Paulo, comprando e pesquisando suas “bugigangas” de plástico que compõem grande parte de seus trabalhos de instalação. O que nos parece fútil e nos passa despercebido, como adesivinhos do Pato Donald, pelúcias ou sapos de borracha rudimentares, nas mãos deste verdadeiro Noé compõem intrigantes e originais instalações, onde sempre há crítica, controvérsia e irreverência. Atualíssimo, Leirner explica o inexplicável, descomplica o grande mistério do que é arte, quem define o que é arte, o que apontamos como lixo ou como ouro.


Pertencente ao grupo REX, o qual ajudou a fundar, em 66, este senhor ganhou alguns dos principais prêmios do meio artístico nacional e internacional. Não que ele esteja preocupado com isso. Aparentamente despreocupado com tudo, anda sempre com uma dezena de amuletos dos mais sortidos pendurados em seu pescoço, como figas, pentagramas, santos, budas e outras imagens – o kitsch, a miscelânea, a informação multi-facetada de suas invenções é tudo e é nada ao mesmo tempo: segundo ele, usar todos os símbolos religiosos é não ter religião. Simples, e faz sentido.


Klee, Pirandello, Walt Disney, logotipo do Corinthians... não existe preconceito em suas referências. Em certo momento Nelson arruma peças de xadrez num tabuleiro, sendo os personagens dotados de pênis gigantes e envolvidos em posições sexuais com um panda ou com um sapo de brinquedo. É uma alegoria, como o próprio jogo de xadrez o é, e, apesar de aos olhos de quem está habituado à vivência no mundo das artes esta obra ser relativamente de fácil compreensão, a muitos choca, provoca e confunde, o que é mais interessante. “Como colocar isto dentro de um museu?”, pergunta ele, retoricamente. Ele dá um jeito, e vai mais além. Sua obra é composta de reinvenção, colagem, revisitação... apropriação seria o termo mais certeiro. Ele começou assim na década de 60 e continua “roubando” pedaços de outros artistas para compor. E nesse momento devemos reconhecer: e qual obra não o faz? No cinema, nas artes plásticas, na literatura...


A parte visual, montagem, edição e trilha são geniais. Ágil, descontraída, bem-humorada e repleta de referências, como a obra dele, a edição é adequada. A trilha cai como uma luva (de camelô, no caso), pontuando momentos geniais, frases, trechos de obras suas, ou simplesmente momentos estúpidos e banais, como uma cena à la making of do artista sendo captado por uma das câmeras da equipe do documentário, visivelmente entediado e não vendo sentido em coisa alguma que acontece ao seu redor, com uma mescla de ironia e sarrismo. Parece engraçado, mas nos provoca uma gostosa reflexão sobre o que fazemos, como fazemos (achar nossa forma de arte às vezes é um desafio maior do que criar), e, principalmente, por que fazemos. Arte é história, é técnica, é estudo, refinamento, mas também é este vagar, esse sem-motivo, pura apreciação ou futilidade, se lhe apetece.


Assim é, se lhe Parece fica em cartaz de 02 a 29 de Setembro na rede de cinemas do Unibanco, em São Paulo, Santos (SP), Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador. Esta é uma grande oportunidade de conhecer a obra destes criadores que não são tão conhecidos pela massa, com excessão provavelmente de Leminski e Zé Celso. O que une os cinco é um criar inovador, transgressor e, arrisco dizer, mais anárquico, com o qual se tornaram gigantes, romperam comodismos, convenções e hermetismo.



Assim é, se lhe Parece – 75 min
Brasil – 2011
Direção: Carla Gallo

Estreia: 02 de setembro.
 

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