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O Uruguai, nosso vizinho ao sul, é pouco conhecido pelos brasileiros, ainda que muitos dos nossos jovens de classe alta passem o verão no sofisticado balneário Punta del Este. O simpático país é desvelado em Além da Estrada (Por el Camino), co-produção entre as duas nações e longa de estreia de Charly Braun, que recebeu o prêmio de melhor diretor do Festival do Rio 2010.

Santiago (Esteban Feune de Colombi) é um jovem argentino que está no Uruguai para tomar posse de um terreno deixado por seus pais, mortos em um trágico acidente alguns anos antes. Ao sair de Montevidéu, encontra por acaso Juliette (Jill Mulleady), uma belga que está a procura de um antigo amor, a quem oferece carona. Assim, meio sem querer, se tornam companheiros de viagem, e de completos estranhos em um país que não é o deles e falando inglês, idioma que também não é o deles, vão pouco a pouco se aproximando.

Ao chegar à propriedade do padrinho de Santiago, Juliette percebe que ele começa a se reencontrar com sua antiga vida, materializada principalmente na figura de Manuela (Guilhermina Guinle), uma antiga namorada. Decide então seguir seu caminho sozinha, deixando o argentino dividido. Santiago percebe que precisa de Juliette e vai até uma comunidade hippie, onde ela também se dá conta de que seu lugar é ao lado de Santiago.

É com um olhar curioso e carinhoso que Braun nos convida a percorrer as estradas uruguaias, nos conduzindo a regiões tão belas quanto desconhecidas: amplas planícies verdes, praias desertas com mar revolto, fazendas, cavalos, ovelhas. A paisagem se converte assim num personagem com os quais Santiago e Juliette interagem e pelos quais pouco a pouco vão se encantando e se identificando, numa viagem de descoberta e auto-descoberta.

O início da jornada, no entanto, começa por clichês. O prédio onde Santiago vai buscar a escritura de sua herança é o conhecido Palácio Salvo, ícone arquitetônico da capital uruguaia. E é com um tom didático que o senhor que o recebe lhe conta um pouco da história do edifício, e ainda aponta para o Rio da Prata, explicando que é o “rio-mar”. O encontro com Juliette não podia ser mais improvável: Santiago a aborda na rua simplesmente porque ela está arrastando uma mala. A participação da modelo inglesa Naomi Campbell no papel dela mesma é no mínimo curiosa, ainda mais porque faz discurso contra o racismo no mundo da moda e até critica um estilista italiano.

Os diálogos às vezes resvalam no pieguismo, como quando Santiago diz que não está procurando emprego, mas outra coisa, “algo que não sei ainda o que é”, ou quando seu padrinho lhe dá conselhos, dizendo que se arrepende de ter deixado escapar um grande amor e que Santiago não deveria fazer o mesmo. Por outro lado, falas ditas pelo velho e sábio gaucho de cem anos, pelo especialista em aromas ou ainda pelo solitário estanciero que fornece gasolina a Santiago sem cobrar nada, convencem e conquistam pela autenticidade, além de retratar a genuína gentileza do povo uruguaio.

No fim da viagem, mais uma vez a constatação de que o caminho é mais importante que o destino final, ou que as imagens não poucas vezes  significam mais que o discurso. Aliás, o título em espanhol (Por el CaminoPelo Caminho) parece muito mais adequado. De qualquer modo, Além da Estrada certamente poderá contribuir para diminuir a distância entre brasileiros e uruguaios. Agora só falta fazer o mesmo com argentinos, chilenos, paraguaios, bolivianos...




Além da Estrada (Por el Camino) – 85 min
Uruguai, Brasil – 2010
Direção e Roteiro: Charly Braun 
Elenco: Esteban Feune de Colombi, Jill Mulleady, Hugo Arias, Guilhermina Guinle, Naomi Campbell, Hugo Arias, Gonzalo Torres, Tina Malia

Estreia: 09 de setembro.
Em cartaz no Festival do Rio 2011

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