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O cinema italiano já foi revolucionário, vanguardista, crítico, belo, transgressor, corajoso e... bem, continua atualisimo. Um dos temas mais queridos a ele é com certeza a famiglia, o clã. Em Feios, Sujos e Malvados, de Ettore Scola, comida e sexo possuem uma fina sintonia (claro, Estômago é um exemplo mais fresco para nós). O mesmo ocorre neste Um Sonho de Amor

Não é a mais transgressora das películas familiares, como La Luna de Bertolucci, ou tão tensa, como Festa de Família, de Vintenberg, mais quebrador de tabus. Mas dialoga com estes, num clima mais morno. O fato é que os italianos ainda sabem contar uma boa história, e muito bem ilustrada. E isso é o maior tesouro que deve permanecer sempre vivo naquele país em meio a crises econômicas e políticas que por lá ocorrem ultimamente.

Um Sonho de Amor é basicamente a história de um amor proibido: em meio a primos e tias que são verdadeiras víboras cobiçadoras, patriarca ricaço da família Recchi deixa a herança de seu reino empresarial para seu filho Tancredi (Pippo Delbono) e para seu neto Edoardo (Flavio Parenti), pai e filho que quase não se falam. A esposa do primeiro e mãe do segundo (Emma, interpretada por Tilda Swinton) dá total apoio ao filho, Edo, e também tem uma relação distante com o monótono marido. Porém, Edo, apesar de incentivado por todos ao assumir os negócios do avô, quer abrir um restaurante com seu amigo Antonio (Edoardo Gabbriellini), cozinheiro. Estão sempre criando receitas e saboreando suas culinárias, verdadeira paixão dos personagens. 

No meio deste contexto, a cinquentona Emma se apaixona por Antonio (cozinheiro ou leiteiro?). Amor proibido, porque seria um escândalo não só para marido e família em geral, mas para o filho Edo, que é quase um irmão para Antonio. E isto na tela é feito de forma bela, sensual; tórrida seria a palavra perfeita – mas com bom gosto. E Swinton está em plena forma (em ambos os sentidos). Tudo isso com boas metáforas gastronômico-sexuais.

A história (não o roteiro), no cinema, por si só pode bem ser um feijão com arroz, às vezes. Desde que bem temperada e cozida – ou seja, um roteiro bem amarrado, bem filmado e finalizado. No caso, também, bem iluminado – luz realista, amena (temos uma casa de mobília escura, tipo uma embuia, sombria, por onde aqui e acolá entra uma luz etérea, uma nesga, um “facho de sonho”). Sonhos de Emma, que se inspira na recém-assumida relação homossexual (e corte de cabelo à la Anne Heche) de sua filha para também chutar o pau da barraca e se entregar a Antonio. A filha larga um pretendente filhinho-de-papai, escroque e prepotente, porém abastado, por uma bela garota. Nada de muito chocante, é claro, mas para Emma é a pimenta que falta.

Há no meio da salada um personagem exótico, indiano-árabe, que nos diz algo muito importante sobre identidade, raízes e convenções sociais. Talvez aí esteja uma pequena pista da alma do filme. O que lhe dá também força é a trilha, particularmente na estarrecedora sequência final. E então, Homem e Mulher retornam ao crucial, ao épico, instintivo, à sua criação – sem convenções ou obstáculos pós-modernos; vão pra gruta, pro mato, pra caverna do diabo, aquele de Sympathy for the Devil, diabo este que nada mais é do que a repressão, a caretice, a guerra, a caça às bruxas, o patriarquismo intocável, a sociedade fria e convencional, apesar de se chamar “moderna”. Nos livros.



Um Sonho de Amor (Io Sono L’Amore) – 120 min
Itália – 2009
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: Luca Guadagnino, Barbara Alberti, Ivan Cotroneo, Walter Fasano
Elenco: Tilda Swinton, Flavio Parenti, Edoardo Gabbriellini, Alba Rohrwacher, Pippo Delbono, Diane Fleri, Maria Paiato, Marisa Berenson, Waris Ahluwalia, Gabriele Ferzetti

Estreia: 19 de agosto.

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