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Fenômeno cada vez mais comum nas grandes cidades, a solidão é o tema de Transeunte, primeiro longa-metragem de ficção de Eryk Rocha, responsável por diversos documentários premiados e filho do mítico diretor Gláuber Rocha. O filme foi o favorito do público do 6º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo e conquistou o prêmio de melhor ator para Fernando Bezerra no Festival de Brasília.

Transeunte conta a história de Expedito, um homem de 65 anos que acaba de se aposentar e leva uma vida solitária no centro de uma grande cidade. Sua rotina é igual a de muitos idosos: toma café, vai ao banco, corta as unhas. Sua única forma de distração é o radinho de pilha, que ouve o tempo todo. Além de jogos de futebol, escuta programas em que são dados conselhos sobre saúde e a vida sentimental dos ouvintes.

O rádio torna-se assim a única forma de diálogo de Expedito com o mundo exterior. Mesmo quando de alguma forma há contato com outro ser humano, como no banco, por exemplo, não acontece nenhuma interação real. Expedito é um homem isolado, fechado em si mesmo, embora ao seu redor a vida transborde de movimento e ruído, num excelente trabalho de fotografia, câmera e som.

Filmado em preto e branco, talvez para evitar a distração do olhar da vida monótona de Expedito ou para reiterar a monotonia de uma vida sem cor e sem sabor, confirmada ainda pela falta de diálogos, o filme causa um certo desconforto no início. Pouco a pouco, no entanto, vai atraindo a atenção, à medida em que Expedito dá mostras de conexão com o ambiente ao seu redor, o que se anuncia com a visita de uma sobrinha no dia de seu aniversário.

A transformação de Expedito é metaforizada pela construção de um grande conjunto de edifícios num terreno ao lado do seu prédio. Ao mesmo tempo em que a obra avança, ele muda seu comportamento e acaba redescobrindo um sentido para a sua vida. Um elemento um tanto estranho é uma espécie de profeta que faz um discurso que remete aos filmes do Cinema Novo, especialmente os de Gláuber. Ainda que interessante, parece deslocado na narrativa.

Por fim há que se destacar o excelente trabalho do ator Fernando Bezerra, perfeito no papel de Expedito, numa atuação econômica e contida, que vai crescendo e ocupando mais espaço à medida em que se dá a mudança do personagem, até o surpreendente final.



Transeunte – 120 min
Brasil – 2010

Direção: Eryk Rocha
Roteiro: Manuela Dias, Eryk Rocha
Elenco: Fernando Bezerra, Bia Morelli, Luciana Domschke, José Paes de Lira, Teuda Bara

Estreia: 12 de agosto.

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