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Gerard Depardieu (de Minhas Tardes com Margueritte) é um dinossauro. Sem dúvidas, o maior mérito de Mamute é seu protagonista, o açougueiro aposentado que parte numa moto pelas estradas da França em busca da papelada de seus empregos anteriores, que garantirão sua aposentadoria. Não tão tenso como o de Sozinho Contra Todos, de Gaspar Noé, este açougueiro é mais bonachão e, assim como todos outros personagens que permeiam sua jornada, muitas vezes patético, insano, carente e, principalmente, humano

Os cabelos longos, loiros, “pós-Obelix”, do ator lembram muito Mickey Rourke em O Lutador, particularmente no início, em um plano que tem, me parece, o mesmo propósito no enredo: o confronto do homem com uma linha que não é a morte, mas quase é – a aposentadoria ; o tédio, o vazio, o auto-questionamento. Ver-se inútil em tudo aquilo que não é o nosso ofício.

Faz-se a mesma coisa a vida toda. Dedicamo-nos, muitas vezes, ao mesmo ofício, à mesma arte, ao mesmo fazer e ao mesmo pensar. De repente, algumas décadas se passaram e é chegada a hora de pendurar as chuteiras. Depressão. Vazio, explícito em vários diálogos e planos presentes no filme. Mesmice? Não. Descobrimos que na verdade este pacato ex-açougueiro já viveu uma série de experiências, profissionais e pessoais. 

A agonia do personagem é extravasada em forma de viagem, e, quando o road movie começa é que a história realmente acontece. Granulada, difusa, “estourada”, Mamute não tem grandes pretenções, é uma película simples e sincera. E engraçada. Aqui a desgraça é tratada com bom-humor, aliás, ótimo humor que se vê atualmente no cinema francês em geral. Sem firulas. Sem muita ironia ou meias-palavras, é tal qual o nosso Mamute: rústico, simples, mas muito honesto.



Mamute (Mammuth) – 92 min
França – 2010
Direção e Roteiro: Gustave de Kervern, Benoit Delépine
Elenco: Gerard Depardieu, Yolande Moreau, Isabelle Adjani, Anna Mouglalis

Estreia: 05 de agosto.

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  1. Achei muito bom o texto e a leitura do filme é ótima.

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  2. A aposentadoria é contraditória: se por um lado te dá a opção de realizar vária coisas uma vez que tem tempo e dinheiro, por outro já não possui certo vigor e saúde. Em “Mamute” tudo se mescla para indefinir o fenômeno da jubilação, mostrando que não é tão simplório assim o tema.
    Mamute acaba de se aposentar e começa a buscar o que fazer com seu tempo livre. Como não sabe fazer nada isso se torna um empecilho. Entretanto para gozar de sua aposentadoria necessita recolher todos os papeis de seus antigos empregos, e assim dá início ao Road movie.
    Através de seus empregos passados começamos a conhecer mais o personagem calado e taciturno. Seus traumas, deficiências e também seus possíveis anseios.
    O filme abusa da textura, proporcionando passagens de puras expressões visuais com cores e formas abstratas, sobretudo quando está em viagem o protagonista. Uma bela forma de passar o tempo e de dar uma chance à contemplação. As imagens em super 8 reforçam a característica suja do filme, que por um lado pode remitir ao descontentamento com o cinema do tipo espetáculo, onde tudo é belo e funcional por outro pode ser uma carga estética que aproxime à vida de Mamute. A visão granulada da realidade é outra forma de perceber os vazios presentes na vida,e que muitas vezes são mais interessantes que a própria vivência cotidiana
    Os diretores apostam no olhar anárquico sobre a realidade, propondo intervenções criticas na vida habitual, seja defecar em campos de golfe, seja navegar em uma piscina, ou masturbar-se perante familiares. É o quarto filme da dupla Gustave de Kervern, Benoît Delépine que sempre abordam formas polêmicas e subversivas de confronto com uma realidade burguesa e metódica. Talvez sejam os diretores que abordam a temática mais interessante da atualidade, mesmo que de forma simples e sem muito estrondo. Longe do cinema comercial, e também dos longos diálogos tão comuns no cinema francês. Originais no que fazem, rompem com a tradição e moral socialmente aceitas, desde seu primeiro filme (Aaltra 2004) onde encarnaram dois inválidos rebeldes que se aproveitam da pena alheia.
    Gerard Depardieu leva o filme nas costas, interpretando o bruto-sentimental Mamute, mas conta ainda com o elenco das outras produções da dupla Yolande Moreau, Bouli Lanners e com a participação especial quase subliminar de Isabelle Adjani, alem dos próprios diretores que sempre fazer uma aparição desagradável, encarnando personagens mal educados cujo humor deixa a desejar.

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