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"Uma mala aberta sobre a cama, meu pai indo e vindo, mas não entendo que viagem de repente no dia do aniversário do pai". São as palavras de Flavia Castro, ainda menina, ante uma das inúmeras partidas de seu pai. Celso Castro, jornalista, comunista, morreu em 1984 sob circunstâncias suspeitas, após uma vida de muitas reuniões, viagens e lutas. Em constante movimento durante os anos de chumbo, Castro foi preso, torturado, exilado, e ainda assim tentou manter vínculos com seus filhos, fosse por cartas, fosse por breves estadas em algum país longe do Brasil. Um pai nada convencional.

Junto com seu irmão, Joca, Flavia tenta retrilhar os caminhos do pai em busca de explicações. Partindo de seu assassinato prematuro em Porto Alegre, seguindo cartas, documentos e outras pistas, ela recria os cenários em que viveu com o pai e a mãe durante os anos de militância comunista. Busca contatos, relembra histórias, e mais do que tudo, tenta reaver uma imagem do próprio pai que supere as informações dadas pelos jornais da época.

É uma jornada pela qual todos nós passamos, ao atingir a idade adulta. Os atos, as falhas, os acertos, toda a aura de diversão e alegria que percebemos quando crianças ameaça se desfazer diante da percepção da realidade. Ninguém quer um bandido como pai, mas que circunstâncias podem transformar um homem de bem em bandido? De que lado da história você a vê? É o que busca Flavia.

Numa montagem comprida, mas muito bem amarrada, a diretora soube mesclar leituras, cenários e entrevistas de um jeito cativante e confortável, fato que rendeu o prêmio de melhor documentário no Festival do Rio 2010. Não se fica cansado durante o filme, mas exatamente o oposto: ficamos comovidos com a história de Celso, mas jamais com pena. O próprio Celso, em carta a seus pais, disse "assumir todas as consequências de seus atos" e vemos que ele o fez, realmente, e sentimos empatia por ele. A imagem de um homem com ideais, com um objetivo, mas ainda assim cheio de incertezas, vai se tornando cada vez mais nítida em nossa mente.

No filme também são abordadas questões relativas ao movimento comunista, e tanto para quem viveu este período da história do Brasil, quanto para quem só ouviu falar dele, é muito bom ter uma visão interna das atividades. Uma visão simples, apolítica: os olhos de uma criança. A vida de Celso Castro e suas atividades políticas se tornam cada vez mais uma só, e se parecem sem sentido à luz de nossa economia estável e nossas liberdades garantidas, não o são. Flavia soube com maestria trazer a história de seu pai até os dias de hoje, mesmo depois de sua morte, e fazer valer tudo pelo que lutou e pelo que morreu. Seu pai, afinal, tem uma imagem, e seu trabalho teve um fim.




Diário de uma Busca – 108 min
Brasil, França – 2010
Direção e Roteiro: Flavia Castro

Estreia: 26 de agosto.
Em cartaz no Festival do Rio 2011

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