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Enquanto outros cineastas consagrados, como Woody Allen, se mantêm ativos e filmam com uma periodicidade regular, Terrence Malick produz suas obras com longas pausas entre elas. O diretor já chegou a ficar 20 anos sem filmar, entre Dias do Paraíso (1978) e Além da Linha Vermelha (1998). A Árvore da Vida, seu quinto longa-metragem, chega aos cinemas brasileiros como vencedor da Palma de Ouro, prêmio máximo do badalado Festival de Cannes, que na edição de 2011 teve Robert de Niro como presidente do júri.

A narrativa pausada, e as mais de duas horas de projeção, podem desagradar a quem se acomodou aos roteiros que usam a estrutura tradicional de início, meio e fim, mas certamente é um prato cheio para quem gosta de apreciar uma obra que faz pensar, que questiona e filosofa. Por mais que pareça pretensiosa, A Árvore da Vida é, em sua essência, simples e minimalista, e surpreende pela ousadia do roteiro (assinado pelo próprio Malick), pela caprichada montagem (que tem o brasileiro Daniel Rezende na equipe) e pelo belíssimo trabalho de fotografia (do mexicano Emmanuel Lubezki), com texturas de cores e iluminações encantadoras.

Tree of Life (no original) é uma lúdica viagem pelos mistérios da vida e os questionamentos que todo ser humano faz, pelo menos, em algum momento de sua efêmera existência, entrecortada por fragmentos de memórias e cenas do cotidiano de uma família comum, formada por um casal e seus três filhos. A educação austera que Mr. O'Brien (Brad Pitt) impõe às crianças atormenta a alma e gera cicatrizes profundas em Jack (Sean Penn, de Jogo de Poder), interpretado quando jovem pelo estreante Hunter McCracken, em segura atuação.

O filme gera um contraponto entre a força da natureza e a vida do homem, limitada por seus instintos, mas dotada da possibilidade da graça, ampliada pela doação ao próximo, seja através do amor altruísta, seja através do perdão. Jack precisa se libertar das dores do passado para poder aproveitar o presente e ter esperança no futuro. Em sua busca por respostas, dá início a uma tentativa amarguradamente desesperada de entrar em contato com o divino e o infinito, frente à brevidade de sua vida.

A transição entre atos, e as mudanças de destaque entre protagonistas, demonstram que o ser humano não tem capacidade de assimilar a natureza como ela realmente é, devido à limitação dos sentidos que possui, mas luta por isso e parece ter uma consciência adormecida do contato com o divino, que desperta quando se depara com determinados eventos. A dor da perda e a saudade se transformam em gritos abafados pelo arrependimento de não ter tido tempo de dizer o necessário e o distanciamento de pais, filhos e irmãos evidenciam que um núcleo familiar com laços frágeis só é capaz de se reerguer com amor.

A densidade conflitual do drama dos personagens é intercalada com sequências de transição que parecem a tela de um pintor; a obra de arte vai sendo construída e ganhando vida pouco a pouco, só que, no caso da tela de Malick, é dotada de som, música e um exuberante trabalho de direção de arte (de David Crank). O desejo de encontrar a luz é marcado pelas transformações da natureza, como referências metafóricas às vicissitudes da existência humana.

Cortes temporais atravessam eras (desde o Big Bang até o fim dos tempos) e é inevitável não lembrar de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), do genial Stanley Kubrick, que embora, gere controvérsias a respeito de ser uma obra-prima ou não, se tornou um clássico do cinema. Seria muita pretensão especular se A Árvore da Vida seguirá o mesmo rumo ou vai ser esquecida daqui a 50 anos, mas não duvido que se torne obra obrigatória entre os cinéfilos amantes dos chamados “filmes de arte”. Afinal, entretenimento é produto da indústria cultural e, cinema é, acima de tudo, uma sublime forma de expressão artística.

Os astros Brad Pitt e Sean Penn, mesmo em segundo plano, devido à opção de privilegiar as passagens oníricas, têm atuações ao mesmo tempo contidas e viscerais, por mais paradoxal que possa parecer. Já as atuações das crianças, em especial  a do estreante Hunter McCracken (que interpreta o jovem Jack) são excelentes, assim como a da dona de casa Mrs. O'Brien (Jessica Chastain). A melancolia pelo fato de não poder mudar o mundo e se sentir trancafiado em seu próprio corpo, o saudosismo, a religião, querer entender Deus, a fé...

A Árvore da Vida aborda dúvidas existenciais que parecem intrínsecas ao ser humano. Assim como acontece com a família O'Brien, principalmente com Jack, chega um ponto em que as pessoas precisam parar para analisar seu passado e refletir sobre sua existência. E é interessante perceber como a infância pode afetar a vida de um adulto, suas atitudes, sentimentos, mudanças e amadurecimento. Cada um vive da forma que consegue, ou que acha melhor, mas é indiscutível: viver sem amor não faz sentido.



A Árvore da Vida (Tree of Life) – 138 min
EUA – 2011
Direção e Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Laramie Eppler, Tye Sheridan, Fiona Shaw

Estreia: 12 de agosto.

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  1. Faltou foi mostrar o futuro do Jack né? Porque só mostrou um pouco, e do nada, acabou.

    É um filme MUITO DO RUIM.

    Só quem vai elogiar é cult, metido a cult ou críticos de cinema.

    Nós, mortais, não queremos ver essa chatice.

    Todo mundo saiu do cinema rindo tamanha besteira representou para nós.

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  2. A trilha é maravilhosa, a fotografia também. Gostei das cenas em que os membros da família eram colocadas em xeque e de ler seus pensamentos e dúvidas "intrínsecos ao ser humano", só acho que a parte inicial foi cansativa, poderia ser condensada.

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  3. Primeira vez na vida que dormi no cinema...

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  4. Acho injusto a quantidade de pessoas dizendo que só quem gosta desse filme é pseudo-intelectual, pessoas que nada entenderam e querem se fingir de cult, etc.
    Acho muito limitado tratar uma obra de arte como Bom ou Ruim e ainda classificar o tipo de pessoa que irá gostar dela. Arte é subjetivo, interage diretamente com emoções que o indivíduo possui, ou até mesmo cria emoções nas pessoas. E isso acontece de uma forma diferente, baseado em experiências, gostos, memórias, aprendizados e toda a bagagem que a pessoa tem.
    Desta forma, o que se pode fazer? Diminuir a opinião de quem gostou ou de quem não gostou não me parece a maneira mais sensata de agir diante de uma obra de arte.
    Minha opinião? Eu gostei muito, achei o filme belíssimo e fiquei muito emocionado. Aos que não gostaram, que pena. Com certeza eu tive 2 horas e 20 minutos muito melhores que as deles.

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  5. Bom, concordo com a Aline, certas cenas poderiam ter sido condensadas. Acho difícil esse filme se tornar um clássico do cinema e inesquecível. Ele é bom, mas a premiação e os elogios feitos mesmo antes da estréia deram ao filme muito mais reconhecimento do que, de fato, ele merece. O que mais impressiona é a parte artística e a atuação de Jack também. Sean Penn pouco aparece, mas sua presença é forte no filme; ótimo! A proposta do filme, de tratar de questões existenciais e filosóficas, é interessante mas não foi profunda - o que, talvez, possa ter sido proposital. É interessante traçar um paralelo com um dos livros mais belos da Bíblia - Eclesiastes. Nele,o sábio Salomão também aborda a questão do sentido da vida, de que nem sempre o fato de sermos bons nos fará mais felizes e satisfeitos. Ele reconhece que, muitas vezes, os justos tem o mesmo fim que os injustos. Que os honestos tem o mesmo destino que os desonestos. Que tanto o homem quanto os bichos tem o mesmo fim: viram pó. Mas ainda assim, vale a pena ser bom e ter fé.

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  6. Eu achei o filme horrível, cansativo e sinceramente a mensagem que ele queria passar (ou sei lá se queria passar alguma coisa nesse filme esquisito) poderia ser melhor divulgada com um roteiro muito mais simples...
    Para mim esse diretor quis ser diferente para se consagrar, e conseguiu... agora ele iniciou um legado de filmes esquisitos e enigmáticos e inúteis para nossa vida... imagina as porcarias de filme que virão por aí... Ninguém merece.

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  7. Eu gostei. Me emocionei e até chorei. Me deixei levar pelas impressões. Pela atuação dos atores. Achei bonito. Sutil. linda música,lindas imagens. Pura emoção, nenhuma razão.

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  8. meu papo é reto!
    esse filme estorou de bilheteria aonde??
    Em alguns cinemas americanos, foi preciso afixar, nas bilheterias, um aviso de que “A árvore da vida” não seguia uma narrativa convencional e que o dinheiro do ingresso não seria devolvido a quem fosse embora durante a sessão. Parece exagero, mas tamanha precaução é justificada quando estamos diante de uma obra de Terrence Malick. Um dos raros sobreviventes do cinema de autor em Hollywood, ele faz filmes que em nada se assemelham à concepção...

    ou seja, é ruim mesmo para a maioria.

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  9. Antes de assistir ao filme, já tinha lido todas as críticas.
    Acredito que entendi o filme em sua essência, o surgimento da vida, o questionamento da intervenção divina nesta criação (abordado de uma forma que me lembrou um pouco os documentários de Stephen Hawking), o questionamento permanente que fazemos sobre Deus em nossas vidas, em nosso mundo, diante de tantos acontecimentos catastróficos.
    E diante disto, aceitar.
    Porém a minha decepção foi chegar ao final sem a catarse.
    Se faz uma longa reflexão durante o filme ( e aí mais uma vez é algo muito pessoal e interpretativo de cada um), porém não se chega a purificação, somente uma extensão reflexiva sem fim.

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  10. O enredo é bom, se estivesse nas mãos de um diretor mais criativo poderia ser um filme maravilhoso. O filme no seu decorrrer se mostra cansativo, sem sentido e inconclusivo.

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  11. Eu gostei, pois gosto de filmes cult, mas é uma sacanagem colocar um filme destes no cinema. Querendo ou não o cinema de hoje é um templo de entretenimento e não arte.

    Aprecio o filme, achei-o muito sutil e belo, porem não deveria passar no cinema. Ou deveria ter um aviso de que se trata de um filme do tipo "artístico" ou cult. Por respeito àqueles que na verdade só querem um entretenimento barato para uma noite qualquer.

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  12. GOSTARIA DE SABER QUAL DOS FILHOS DELES QUE MORRERAM FICOU UM POUCO CONFUSO...

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  13. Acho sinceramente que existe um exagero na descoberta da arte nesse filme, admito que a fotografia do filme é belíssima e o mini documentário de quase 30 min no meio do filme é bem interessante aos olhos, mas por que não admitir a falta de qualidade do filme em seus aspectos mais elementares. Me parece que na atual realidade da arte, os críticos e quem se acha superior à normalidade crítica só valorizam o que não tem sentido, tentando a todo custo manter um status de superioridade, como se quisesse estampar em estandarte que só os inteligentes entenderam ... Me desculpem mas não resistirei em dizer: Esse filme é uma merda !

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  14. Por que jogar a camisola no rio????
    Pra que tanto drama numa familia onde o pai não é alcoolatra, não bate na mae e nos filhos??? Muito xororô pra pouca merda!!!
    Quiseram transformar em algo honírico uma vida cotidiana sem sal. A direção de arte é belíssima mesmo mas o enredo é enjoativo a ponto de causa nauseas!!

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  15. A mensagem que parece tentar ser passada é de certa forma interessante,porém a forma como ele tentou passar-la na minha opnião foi um total fiasco, sem contar o apelo religioso, uma questão que nem vale-se apena entrar. E aquelas jogadas de camera o tempo todo (de deixar qualquer um tonto). No mais só posso estar satisfeito por Terrence Malick não filmar com tanta frequência.

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  16. Algueém realmente gostou desse filme?

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  17. eu adorei este filme , é um dos maiores filmes de todos os tempos !!
    so quem nao entendeu , aqueles que nao sao inteligentes !!!

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